A evocação só começa quando os ponteiros anunciam o próximo instante. É preciso estancar o tempo para que o pensamento flua em liberdade. Por isso deixo de dar corda no relógio de carrilhão, não escuto badaladas dos quartos de hora; então me esqueço das prisões cronológicas e atenho-me ao sentimento crescente, independente do tempo que levou para crescer, intensidade gritante num ritmo frenético e abrupto. À sombra dessa abstração, consigo rabiscar nuances no imaginário. Escrevo palavras soltas, crio frases, tenho prazer em escandir sílabas, uma a uma; os lábios murmuram, mas você não me ouve. Não, não me ouça agora...só me abrace e entenda o quanto ta sendo importante pra mim, o quão especial e assustador têm sido e crescido. Conheço os meus refúgios, aprendi a fisgar o inatingível, toco de longe, cuido de longe, mesmo quando vejo de perto. Sinta, apenas sinta.
Em meio a desavenças, tristezas, alegrias... Tornei-me mulher. Entretanto não vou deixar de falar da menina que não cala em mim. Não é exagero dizer que o epicentro de todas as minhas recordações encontra-se na infância, lá mesmo , na ampla casa que me acolhia nos medos e nas alegrias.
Hoje, cada dia me desaponta com virgens surpresas, as interrogações enchem o meu céu azul que um dia foi turvo. Entreguei tão rápido o que guardei por anos, o céu turvo abriu-se. Será que eu mereço, será que o querer propriamente dito e desejado está próximo? No silêncio de um instante que presumo estancar, deduzo que olhei o mundo por trás de um vidro e você acrescentou às cores e nenhuma dessas expressões morrerá em mim a menos que cultive, cuide e permita-se ser retribuída. Quero sentimentos lindos e infindáveis, quero abraços ternos e eternos... Quero querer sem medo, sem medo de amar, sem medo do amor. Um dia vai entender o som mudo das minhas palavras, o meu abraço que confessa, o olhar de quem sente e não nega.