
Movida a ritmos ou falta deles. Gosto de andar por aí, despida de qualquer compromisso, olhar o mar, sentir aquele cheiro, apreciar a lua, apontar para as estrelas, pisar em areia virgem. Mas gosto, sobretudo, de recolher-me ao claustro, vigiar a chama da vela acesa, transformando-se, transformando-me..., deixar que pensamentos me invadam; Então sou pura imaginação, sequer sei o que se passa fora do meu quadrilátero de aconchego. Ouço música, permito inventar-me do jeito que eu quero.
Sobre a fina epiderme, assalta-me uma sensação de felicidade quase orgânica. Estou livre do mundo exterior ou ligada a ele pelo universo dos sentidos.
Fabrico e refabrico os desejos perdidos lá atrás.O prazer pelo silêncio é imenso, pela mansidão das palavras não ditas, por lábios que sibilam o inaudível. A essência não precisa ser pronunciada. Escuto-me, digo-me tantas vezes o que não devo, que calo-me em susto. Ouço as palpitações, um turbilhão interior agasalha o espírito, confortando-me. Conheço um mínimo da minha alma, que seja! E, no entanto, como ela me engana com as suas imprevistas ciladas. Antes assim...as linearidades não favorecem o crescimento individual. Estou convicta que as pulsações representam a semente de qualquer maturidade. Multiplico-me em sentido côncavo e, a cada movimento intimista, converto-me em um baobá de raízes seculares.
Neste momento, perscruto o relógio: são onze horas da noite e vinte e um minutos, chove, o vento uiva pela fresta da janela, os homens dormem, as árvores balançam, faz frio. O corpo, o meu, alberga-se em tecido mais espesso, encolhido ao seu canto, já rogou por amparo, mas existem apenas os ruídos da natureza, os ecos sonoros da chuva e do vento que acalantam o silêncio que me habita. Nada macula o estado de recolhimento.
Entre a menina andeja que visita a cidade, deambulando por ruas e mais ruas, indo e voltando, vigiando os lugares mais ermos, e a menina que esconde intencionalmente entre quatro paredes, em absoluto repouso do dia, pausa necessária à existência, luz apagada, somente a vela mostrando a chama ardente, mutação, fogo vibrante, não se apontam divisões, sim laços interativos.É preciso fugir para regressar ao epicentro do ser. Vontades díspares enriquecem o advir.Há o partir e o chegar. Na balança pendular, constato, entretanto, a forte propensão à condição de...sei lá!
Sou outra em retraimento. O oxigênio da quietude aumenta as forças, renovo-me, acato os fantasmas que me acalmam, nenhuma estranheza emerge desse estágio letárgico. E a alma no êxtase da serenidade.
Porque gosto tanto da reclusão? Por temperamento, cativam-me visões profundas, assíduas, indagnações, uma espécie de vivência introspectiva, o imo à procura de grutas ocultas, secretas, desérticas. Nunca almejei atender aos anseios, há que se manter uma parte de si encoberta pela fumaça dos mistérios, alguns mais próximos, outros mais distantes, todos pertencentes ao mesmo tronco identitário. Não quero simplificações!Tampouco acreditar em retratos apressados, nem sei definir-me.
Bastam-me os elos enredados entre si, como uma teia de aranha bem tecida.Só, no silência monástico, guardo-me em fortalezas que ainda entrontro em pilares destroçados.
A muralha não é de pedra, mas é de uma invisível "solidão" que se constói. Edifico dia após dia a malha de bilros, clarividências, desenhos indecifráveis ( O dadaísmo me salva nessas horas, ok).
Nem sempre o resultado é compatível com a esperança depositada na laboriosa fabricação. Todo trabalho de construção interior possui valor em si mesmo.
Que esforço desprendo para ser completamente inteira. Esforço talvez inútil. Por isso, caminho em estradas e estradas, acabo me refugiando em prolongados 'retiros', ora mais meditativa que andeja, ou vice-versa.
De qualquer forma, o pensamento me acompanha na agudeza da introspecção, no que é percebido pelo sentimento, no que o coração fisga com mais vigor. Faço da minha vida um exercício perene de autoconhecimento. E eu nunca sei quem sou.
"Tenho fases como a lua, dases de andar escondida, fases de vir pra rua"
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