segunda-feira, agosto 10, 2009

Olho o relógio, mais uma vez me atraso. Os ponteiros indicam a cronologia perdida. As horas me devoram como um leão faminto à caça de uma boa presa. Vou para um lado, vou para outro, perco-me no emaranhado das linhas soltas. Nem sei por onde começar, o dia está cheio, a agenda repleta de compromissos, homens e mulheres transitam apressados, não há tempo para uma conversa descontraída, inquietações giram ao redor, cansaços aumentam, a fadiga se instala, absolutamente exaurida.
“Em vão tento me explicar, os muros são surdos”
Ligo, falo com um, com outro, aceno para desconhecidos, brota uma superficialidade que se traduz em atos mecânicos, os murmúrios nem sempre contradizem com o que almejo, a respiração ofega, o transito não avança, tenho hora marcada. Para onde vou realmente? ‘O que desatou num só momento, não cabe no infinito, e é fuga e vento’
O vazio me invade, carrego o peso inexorável das insignificâncias. Mas a jornada ainda exige esforço físico e mental. Enredo-me nos cruzamentos, já nem me reconheço. O anoitecer inicia, a nuvem pesada deságua, o corpo se molha, o velho hábito de não levar guarda chuva. Desisto do dia, volto. ‘“Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase”.
Entro em casa, jogo as roupas no chão do quarto e tomo uma ducha, entrego-me à beatificação da água, refestelo-me na cama, fecho os olhos...
Recapitulo a azafama dos momentos anteriores, a cabeça se atordoa o labirinto dos volteios me enlouquece. Não guardei o seu destino, então me perdi o caminho de volta.
“Porém meus olhos não perguntam nada”
O silêncio me acalma à semelhança de uma ducha de paz. Mas ainda escuto o burburinho da rua. E, sobretudo, assisto à desenfreada competição da humanidade.
Os valores inexistem, a corrida pelo pódio se acelera, todos aclamam os vencedores, só há lugar para troféus; aos perdedores, a melancolia da derrota. O corpo se retrai em repúdio ao desmantelo do cotidiano. A roda-viva fortalece o desgaste diário, a sensação é de tédio. O ambiente escuro me agrada e associa-se ao silêncio numa cumplicidade inatingível e, no entanto, absorvo a aliança bendita.
Clamo por afagos: quase pareceram no afã dos acontecimentos. Vulnerável, frágil, um vidro fino que se arranha à toa. E o palco da vida reclama personagens hercúleos, valentes, prontos para batalhas. “Tudo é possível, só eu impossível”
Acendo a luz num ato de bravura. Soergo-me do dia estafante. Passo uma esponja nos inevitáveis atropelos. Respiro fundo, sou outra mulher, amiga da noite e da serenidade. Entre luzes e sombras penso melhor. Reinvento as circunstâncias, descubro lembranças na mansidão da penumbra. “Estou escura, estou rigorosamente noturna, estou vazia”.
Trago, contudo, forças que me impelem a vigiar fotos. Aquela, é..me chama atenção. Olha-me com doçura, os lábios balbuciam. “Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão”.
E a noite me acalanta, trazendo-me o afeto. E mais uma vez eu deixo passear na superfície.

De vez em quando, nós!

.Ciclo vicioso doentio.

Um comentário:

  1. Sabe o que mais me encanta em ti?
    A tua tão pouca idade.
    És linda!
    Teu blog é você, um tanto "Bayroniano"
    CUIDADO!!!!

    Beijos e terno abraço!

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