sexta-feira, outubro 23, 2009



Os ponteiros se movem no bojo circular do relógio antigo. Há um ritmo lento, gradual, persistente. Tento apreender os átimos de segundo; Enrosco-me em agudas subjetivações. Fecho as pálpebras. Ouço o imponderável. Faz de conta que o "tiquetaque" é um brinquedo de infância, uma melodia adicional que se junta às artes da criança em épocas de assombração. Invento uma nova cena. De olhos vedados, recrio espaços e tempos em pura simultaneidade, Nunca me arrependo das faxinas interiores. Os ponteiros, plenos de adereços barrocos, avançam. O instante se esvai alheio à minha determinação, quero tocá-lo, sou impotente diante da tua feroz indiferença. Por enquanto, o tempo equivale ao menor intervalo do pensamento. Estou a meio de uma circularidade irrefutável. A terra parece com o relógio, ambos detêm o poder de orbitar em si mesmos. Passageiros invisíveis que me amedontram (soberanos, autônomos, déspotas). Há um movimento a extrapolar os sentidos, e não adianta perseguir um mandala que não é abstração, embora os meus pobres recursos sejam tão frágeis que não o identifiquem. As semelhanças se irmanam; os pirilampos acendem e apagam; a mariposa é atraída pela luz, seu pó é atraído pelas minhas mãos e a as minhas mãos levadas aos olhos. Será? Whatever!
O que me serve de bussola. O instante me devora, sequer confirma o lacre da existência. Estou certa de que o relógio representa a ancestralidade que me deu origem. Quantos já o vigiaram?Ele vem de longe, muito longe, com o peso da herança consangüínea e a carga de um legado que desemboca na regularidade do pêndulo. Oscilo. Nunca sei em que fio de aço hei de andar no circo onde sou a trapezista dos nobres espetáculos. Equiblibro-me com dificuldade. O perigo me atrai, por isso recuso a rede de proteção. Deslizo sob olhos, apresentações suicidas.
O raciocínio escapa aos meandros da lucidez. Melhor não aderir à efemeridade do instante, deixar que a vida seja longe das recorrentes indagações. De que me servirão respostas vazias? Há muitas vozes clamando por amor, ainda que os abraços nao acompanhem a força do afeto. Estou cansada de repreender os meus sentimentos. Jamais perderei a esperança de ver o mundo se renovando através dos olhares em troca. Sou intensa. Não me agradam fragmentos de ternura, aspiro às totalidades. Procuro a completude dos que têm sede de vida. Quero a fonte jorrando águas de purificação, o céu transbordando azuis iria dos, o horizonte se fazendo cada vez mais longínquo. Alguma coisa há de ser inatingível para assegurar a pujança do mistério. A saudade invoca os sentimentos mais profundos. Amo os pequenos nadas, acato-me às vontades pequenas. Estou me entregando de uma forma voraz, mas às vezes não faz mal. Quantas vezes me sinto em carne viva? O relógio me cala. Sou a contingência de uma humanidade anônima. Como decifrar o enigma da esfinge? Mas o mundo se fez sozinho, independente da angústia temporal. Eu gasto os meus olhos acompanhando o balando do pêndulo....
Que horas são?
É, me perdi.

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