quarta-feira, outubro 28, 2009

Ando cansada de assistir ao que não quero, de saber-me uma ilha deserta em meio à vasta multidão. De perceber que o mundo avança sem bússola, alheio aos sentimentos de cada um. Vejo demais e ouço o que dói. O burburinho cresce em insuportáveis decibéis. Fujo pela primeira porta: vou para um lado, para o ouro, estonteio-me, o corredor acaba desaguando no mesmo destino: a banalidade das emoções. Ninguém detém o ritmo avançado do fracasso ético, os fatos bailam à nossa frente, retratando mensagens artificiais e postiças. O sentido crítico vem desaparecendo ao longo dos anos, os recuos diante dos padrões vigentes esmorecem. O medo atravessa a garganta dos homens. O que não falta, entretanto, são os fantoches por toda a parte, prontos para atacar a solidificação de um modelo vulgar, sem menor requinte de elegância. Cenas mambembes, inexpressivas, pobre de grandeza se repetem: mediocridade impera. A análise criteriosa da vida desapareceu. Esqueceram a honradez e a nobreza de atitudes. O que fazer?
Respiro fundo. Sinto coração partido, fragmentado. Guardo as lágrimas nos olhos, mas recolho-as; afinal, a festa não pode ser interrompida e o concerto de uma orquestra toca ruídos assimétricos. Pois é, a rotina perdeu a magnitude do afeto e os dias se sucedem desordenados. O importante é galgar o pódio da vitória, nada mais. Sentimentos? Que bobagem! Romantismo?Palavra em desuso. Apenas o reflexo de um sucesso arrogante. Aí sim, a glória se confunde com meras ilusões momentâneas. Trago um enorme cansaço que se mistura à sensação de impotência. As frases voam na dispersão de rostos desatentos. O fôlego do meu sopro é brando para acompanhar a velocidade dos acontecimentos; E...”tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo”, como diria Drummond, para enfrentar a avalanche de insignificâncias. Quão pouco para reverter um tempo de homens amputados. O vidro quebrou, há cacos espalhados pelo chão, com jeito a trilha se refaz... mas é preciso pisar em ovos. Ao compasso de inesperados volteios, intensa circularidade assegura minha errância.Não posso nem desejo mudar. Jamais aplaudirei atitudes histriônicas, nem excesso de exibicionismos, nem palcos soberbamente iluminados. Opto pela penumbra dos gestos conscientes, verticais, abissais.Que o pensamento me traga a lucidez da discrição, a prudência das cores leves, a virtuose do silêncio. Não aprecio riscos fáceis, tampouco a versatilidade dos áulicos. Entrego-me à introspecção do humilde. Os jorros de vulgaridade mortificam-me, apunhalam-me a alma, anulando-me por inteira.Busco a simplicidade do autêntico, a pureza dos sentimentos, o cálido aperto de mãos entre amigos que se querem bem. E brado: chega de falsos protocolos, de fingidas etiquetas, de intervalos no mundo. A vida não permite ensaios, apenas pensamentos pro ativos; existe em tempo real, aquele que se vive. Não adianta adiar o “espetáculo”. Ou nasce, cresce e fenece. Abandonar a essência das coisas em nome das banalidades correntes equivale a macular a própria historia essa biografia individual ou coletiva, comprova a nossa existência. Os ponteiros dos relógios ontológicos jamais se atrasam. Urge, portanto, que a dignidade represente o único e poderoso valor da imanente aos espíritos superiores.
Estou cansada de ruínas morais de fragmentos de afeto. É hora de reconstruir o mundo, com pressa e sem tergiversações, pois não há o que esperar. Coloco o primeiro tijolo...

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