Sei que sou feita de recordações. Absorvo o instante de agora para amanhã desfiá-lo num novelo de ilusões. Não sou diferente de ninguém. Uns ousam falar dos sentimentos; outros omitem as emoções por rigor de discrição, ou pelo receio da excessiva exposição. São jeitos diferentes de sentir, mas sentidos sempre. Pois é, o mundo é feio de memórias, das lembranças que nos acodem com a força das reminiscências. Há uma nível evocativa que se instala dentro de cada um, a esboçar o rosto que é meu e que é de todos. Se preservo a memória, preservo a vida. A correlação é absoluta, íntima.
E o tempo se instala naquilo que fui. Conheço cada pedaço do caminho que atravessei, transito entre fantasmas, existo porque eles me fazem latejar o sangue que corre nas veias. Gostaria de escrever sem palavras, mas o pensamento surge mediante a linguagem. Não posso dissociar a letra das formulações da mente E escrevo por necessidade visceral. Narrar é a única maneira de (às vezes) sobreviver. Entre fases e parágrafos, sinto-me viva; a mexer em intrincadas teias formadas no meu íntimo. Algumas emaranhadas em bolor, algumas tecidas sob os subterfúgios das linhas da Esfinge, linhas enigmáticas, de tradução quase impossível.
Urge desvendar enredos misteriosos, o que não posso é deixar-me engolir por mim mesma. E os volteios são nacos de uma história que ainda não contei (quiçá, não vivi.): Vagueiam lá atrás na estrada da infância, quando o tempo não se fazia tempo, corria entre os passos da menina, ingênua, pura, a selar compromissos com uma cronologia eternizante. Quem disse que contabilizava os dias? Cada minuto que passava, representava um minuto de alegria...
Os Natais me diziam épocas de encontros com os parentes que não freqüentavam a minha casa. Tudo palpitava na esperança do advir. Ser criança é ter a capacidade de visualizar o infinito, o infinito...
Depois crescemos e as idealizações modificam, mas a memória serve de alicerce à construção das utopias. Devanear corresponde a ativação da memória, a presentifica-la sob a escolta do passado. E o passado se congela numa memória seletiva, capaz de transfigurar os fatos e as lembranças. Pensar, no ofício maior da existência. Penso e medito. Introspecção me habita. Gosto de escandir essa memória, assim desfruto com maior parcimônia e, com a calma dos mansos, procuro tratar a lembrança com o máximo respeito, afagá-la com mãos abstratas, compondo a unidade de fragmentos. Conheço alguns estilhaços, de outros, nem desconfio. Ainda bem! Necessito de reservas de mim. Há dias em que o mundo me espanta; há dias que convivo com a exterioridade em harmonia; há dias em que o desgaste do corpo se dá em intensidade. O círculo da vida é assim: um rodeio permanente com altos e baixos; Mas tudo muda em movimento espiralado. A soma dos dias resulta no calendário do tempo, e como indaga “quem sou eu para saber p que é o tempo?”
Que pretensão tentar escondê-lo!
O que me cabe é a memória. Sou inquieta e ansiosa. Talvez aparente o contrário; puro engano. Trago os nervos expostos e o mundo que me cerca, se configura a partir do que eu percebo. Neste solilóquio vou edificando pedra sobre pedra, uma engenharia lenta e vagarosa. Prefiro assim...a memória reclama um trato especial, vagaroso e paciente, dotado de perenidade e delicadeza.
Tudo vive num fluxo contínuo, o tempo talvez... as vezes se torna relativo.
ResponderExcluirNão tem como jogar fora o passado enterrar... nem desejamos isso. Ele faz parte do que você se tornou, o que es hoje, mas o que está no passado, tem motivos suficientes para não fazer parte do seu presente... O que ele trás hoje, é o acerto, maturidades, experiências... e claro, doces lembranças.