
O mundo é feito de emoções: surpresa, medo, riso, choro... Há dias tranqüilos; outros, tumultuados. As previsões são tão fugidias, que escapam do osso controle. Dependem das circunstâncias. E não somos capazes de traçar com segurança metas antecipadas. No redemoinho das sensações, trago a idéia de um cromatismo interior, sentimento que aflora em tom e semitom difuso ou clarividente. Procuro, talvez, em vão, imaginar cores para as vivências. Atribuo uma estética ao subjetivo. Pois é, o sentir se alia à arte e todos os atos humanos dependem da maneira como cada um se depara com os acontecimentos. Carrego uma sensibilidade à flor da pele, vejo-me um acúmulo de intuições, perguntas sem respostas, devaneios, alheamento. Repito Fernando Pessoa 'Quando olho pra mim, não me percebo. Tenho tanto a mania de sentir que me extravio às vezes ao sair das próprias sensações que recebo'.
Os versos são belos e confirmam o exercício da estética. Têm sido assim os grandes poetas, aqueles que dão à escrita a força das imagens: palavras que embalam fonemas num ritmo melodioso, a transcender a materialidade para atingir a abstração na sua mais fina agudeza. Às vezes entendo que a vida reclama a arte em todos os momentos. Cada minuto deve ser vivido como se fosse uma obra de arte. Tempo igual à arte, eis a síntese da existência. Arte na palavra, arte na pintura, na cultura ou na menor expressão humana.
A criação simboliza o ponto de partida. Afinal, 'viver não é necessário, o que é necessário é criar.
Tudo isso vem à tona porque ando atordoada com o ritmo do cotidiano. As pessoas transitam apressadamente e eu não sei pra onde vão. Caminham céleres na direção do quê? Outro dia, mais especificamente horas antes do jogo entre Brasil e Coréia do norte, percebi o trânsito agitado, a calçada se tornara num atalho de fuga, os motoristas buzinavam impacientemente, os desaforos eram disparados às cegas.
Os tempos contemporâneos se revelam ruidosos, violentos, pragmáticos. Compreendi que o bosquejo dos sentimentos reivindica um mínimo de meditação. A ascese não pode acontecer dissociada de constantes imersões. Invejei a rotina dos mosteiros, as clausuras isoladas, o passeio no átrio. Circulo de um lado para o outro, do frenesi à calmaria; então me deparo com a lhaneza do dizer: amar é a eterna inocência, e a única inocência não pensar..'
Os sentimentos se completam na estética, na forma, na cor, na gradação dos contrastes. De Michelangelo a Picasso, os propósitos são semelhantes, cruzam-se e se tocam em linhas convergentes: a busca do belo. Os descompassos dos dias atuais se distanciam do culto à virtuose e proclamam tecnologia como o cimo de todas as coisas. A humanidade mudou e eu me tornei uma estranha observadora, alguém à deriva, escolhendo cores para tratar afetos e desafetos. Uma abstração que me agrada.
Como definir a cor do silêncio, da alegria, da lágrima? O silêncio será branco, límpido, cheio de pureza? A alegria, amarela, expressiva? A lágrima, indefinida, quase oculta, turva, a evocar o cinzento? Ou as tonalidades são ilusões de um coração nostálgico?
"A minha alma partiu-se como um vaso vazio, caiu pela escada excessivamente abaixo, caiu das mãos da criada descuidada, caiu, fez-se em mais pedaços do que havia no vaso."
Preciso de ânimo para continuar a pintar a aquarela que nunca comecei.
Ainda to tentando ritmar o silêncio, tentando compreender a sua conduta nesses domingos frios e de autoconhecimento imprescindível.
Seus sentimentos... me lembrou algo, me lembrou uma frase dita por alguém, que se encaixou perfeitamente em mim...a um tempo atrás, não mas...
ResponderExcluir“Se meu sorriso mostrasse o fundo da minha alma, todos que me vissem sorrindo, chorariam comigo”