domingo, maio 09, 2010

O carro buzina, o alarme do outro dispara, a televisão brada em altos decibéis, o garoto dá corda num brinquedo estridente, o microondas indica que o tempo calculado esgotou-se, o cozinheiro grita o prato da vez, o censor de estacionamento alerta para um obstáculo, o restaurante aumenta o volume da música, celulares tocam, muitos, vários, inúmeros, vozes dizem ‘alô!’, um carro de propaganda anuncia promoção da loja de presentes, a sirena da policia persegue algum fora da lei, o guarda de transito apita desesperadamente, a campainha do apartamento toca com insistência, a maquina de lavar acelera na rotatividade, o limpador de pó cadencia uma vibrante zoada...o mundo se exaspera em brados insuportáveis. Tenho a sensação de que as pessoas não conseguem mais conviver com o silêncio. Há um burburinho no ar que atordoa como se, embriagadas por timbres externos, enfrentassem melhor a realidade. Estou cansada de tanto barulho, careço de um mínimo de quietude, ainda que a contemporaneidade já não suporte os ecos interiores. Os medos se misturam a ruídos, que funcionam como amortecedores das insatisfações. Assim, a vida passa na superficialidade, sem que a essência venha à tona, camadas de papel celofane envolvem o núcleo da reflexão. E, pronto. A anestesia provocada pelos mais estranhos estampidos, resolve os problemas cotidianos.
Sair de casa hoje PE ato de heroicidade, transito engarrafado, barulhos assimétricos, uma gama, repleta de dificuldades, que convida a um retorno imediato. A cidade perdeu o planejamento, ninguém respeita ninguém, por todos os cantos observa-se intranqüilidade estampada nos rostos, sem aludir à violência crônica. E não importa a idade, a hora do dia, o nome da rua... Em todos os lugares, os barulhos espocam e os nervos se descontrolam, expostos, à flor da pele.
Confesso o amor pelo silêncio. Não sou diferente de ninguém, igual aos iguais. Conheço, todavia, meus limites, os estampidos me incomodam sobremaneira. Por mais que eu tente suportá-los, acabo rejeitando-os com veemência. Cenas histriônicas me arrepiam, e, no entanto, a todo instante, eu me deparo com uma avalanche de ruídos, vindos de todos os lados, como se me perseguissem assustadoramente. Que hei de fazer?
Sou tão pequena pra lutar por um mundo mais calmo e sensato. Um mundo silente, mera utopia! Resta-me, entretanto, um aceno de alerta nessa multidão ruidosa. Um rogo de desespero: Silêncio, por favor!

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