quarta-feira, setembro 30, 2009

Lembro de tudo. Minha alma tem espaços infinitos, reserva lugar para os pequenos detalhes e para os grandes acontecimentos. Não importa a magnitude da recordação. O que vale é a marca cravada nos recônditos mais íntimos. As imagens difusas ou clarividentes estão contidas nos minúsculos feixes da memória. Apego-me a apetência das coisas findas, tanto quanto a volúpia de alcançar, lá longe, as linhas do horizonte. As forças não esmorecem diante da garimpagem das emoções. Não tenho o dom do esquecimento; ás vezes, esquecer corresponde a um recuso de sobrevivência. Não me favoreço, todavia, de tal desprendimento. Como gostaria de anular alguns fantasmas e deixá-los na coxia do abandono! No fundo, conheço-me bem: Sou uma incondicional devota de recordações. Não repudio os apelos do ego. Ando de mãos dadas com certas assombrações. E minuto a minuto, assusto-me!
Acatar deslembrança, mero esforço de uma razão intocada. A memória abriga todos os nacos, guarda-os com desvelo e, foi não foi, a lembrança involuntária vem à tona, me pega desprevenida, me invade, quase sempre, me entristece.
O ciclo se renova indo e vindo, presentificando-se a qualquer hora, como se em mim habitasse um albergue sem limites. Carrego a leveza dos sonhos ainda não granjeados e a melancolia dos devaneios porventura frustrados. Mas o tempo da recordação se estende para o passado; afasta-se do agora, e por isso, alia-se ao ato das revivências. De novo e de novo, até chegar ao desenho idealizado. E hoje é dia de reacender as possibilidades. Todas.
Estou disposta a vasculhar nos vestígios adormecidos. Amanheço com uma enorme vontade de mexer em abismos inatingíveis. São tantos os motivos para enfrentá-los que não ouso trancafiá-los em zonas de interdito.
Volverei as lembranças recapitularei o que não aconteceu, pois é no território da infância que tudo parece começar.Não importa a idade, importa o estado de espírito, sensível à mutação.
De quantos sonhos sou feita? Não quero saber! Os multiplicarei.
Acreditar que a vida só tem sentido na medida em que desdobro a potencialidade do querer, do querer mais, sempre mais, de modo a fortalecer a ambição dos desejos. Afinal tenho plena consciência do poder da minha vontade. Percorro o périplo cotidiano, ainda que as curvas sinuosas venham a retardar as pisadas no chão frio. Vou e venho, a dialética serve para auxiliar a caminhada. Nem sempre as estradas planas levam ao porto de chegada. Quem já não sentiu o seu navio à deriva?
E, no entanto, em algum momento inesperado, as águas amansam, o corpo singra o oceano calmo, o silêncio se espalha dando passagem às ondas em cadência. A alma relaxa, pronta para exalar lembranças de ontem. Piso a terra firme e construo o mapa das inspirações. De posse de uma história que é minha, escrevo a biografia romanceada porque não tenho aptidão para a racionalidade pura. Misturo sonho com realidade e me sinto relativamente feliz. Quanta coisa aconteceu apenas na minha imaginação. Será que isso é diferente? Nada, somos todos iguais. Se o real me escapa, apego-me as invenções de mim mesma. Numa mistura caleidoscópica, observo por vários ângulos. Vejo pacíficas paisagens, cruentas batalhas, vejo amor, vejo ódio, vejo-me adulta, vejo-me criança. Entre opostos, sedimento os fragmentos; sou inteira, soberbamente inteira no retrato das reminiscências. Há em mim uma gruta antiga e bolorenta, grávida de lembranças e evocações, mas firme... Construída em pedra virgem.

quarta-feira, setembro 23, 2009

O sol clareia lá fora. Ninguém me vê. Os olhos piscam insistentemente à procura de uma meia-luz, que seja.
Vou e volto na lentidão da busca. Não me satisfaz acelerar o advir. Há tanta miragem a ser recriada neste despretensioso espaço que tudo parece começar agora.
Começo. Isolada ao canto esquerdo, tateio os extremos de ausência. Espio a nudez do chão na certeza de que os tempos fervilham no ar, fortalecendo a ancestralidade. Estou só. Não quero companhia. Qualquer diálogo quebraria a lucidez do gesto. Fui até onde não devia, cabe-me agora, arcar com as possíveis conseqüências. Trago no peito a droga da emoção. Faço uso, quando perco a cabeça, nem sempre se resume a portentosos renascimentos. Desprezo o que antes se fez ali. Meu ofício não é inventar, é remoer memórias. Brinco com o espaço que se alarga pouco a pouco no infinito do que me apraz. As horas tentam me sugar, mas escapo, driblo minutos e segundos, vigio o relógio inexistente. Diante da imagem, recuo. Não posso duvidar da minha parábola. A antiguidade representa o único recurso que me valho para vigorar a seiva das coisas findas.
...o quarto cresce pra dentro. Tenho medo das distâncias interiores. Penetro nos recôncavos de um corpo frágil e débil. Encolho. Abstraio o visível. Toco no imponderável e eis-me no absurdo de um espaço sem princípio nem fim. Estou a meio, a gravitar sobre o pequeno universo que me hospeda. Que "albergue" será esse? De repente, retorno à incurável timidez. Quantos amores deixei perecer à revelia? Que faço agora? Reabro a porta do túnel de um calendário vencido? Acode-me o frenesi de aproveitar a vida. Com a firme consciência dos que abandonaram desejos ao longo da estrada. Desde que comecei a escrever, passaram cinco minutos. Aproveitei? Se me escaparam, o que direi dos outros minutos? Idealizo a imagem do que nunca quis em verdade. Traços incertos e irregulares perfilam uma figura um tanto indecifrável. Há tantos intervalos entre mim e "eu" mesma. Não importa o pontilhado de um desenho em tela assimétrica. Reduzirei a lupa invasora para evitar inelutáveis enganos. Desde muito, já nem me recordo quando, talvez em um inverno enlameado de outrora, cobicei a discrição dos anacoretas. Não obstante da inclinação aos esconderijos, represo muralhas de vontades que se vão interpondo em uma cadência voluptuosa. Não consigo deter as pulsões que me instigam. Ainda bem que assim vivo, ao modo de um turbilhão inconformado, prestes a rebentar os sentimentos que se levantam à minha frente. Ah, quem me dera a liberdade das venturas inconscientes! Se desabarem as barreiras que me sufocam, irei me refugiar nas prateleiras desérticas do meu eu. Há recantos não preenchidos, sei que há. Resta-me o garimpo do querer, torná-lo possível também. Não receio os descompassos que regulam a bússola hesitante. Peço por pontos de fuga, passagens secretas para os casulos da alma. Ando escondida do mundo. Essa é a verdadeira história de quem não tem o que narrar rs.
Encho linhas vazias, eu, a própria imensidão do vazio no quarto desabitado. Longe de qualquer apreensão da realidade, assumo a intrepidez de dizer: existo
Embora haja "apesar de".

quinta-feira, setembro 17, 2009


A esperança é apenas adiamento. Aguardar significa protelar o não feito. O que venho postergando ao longo dos tempos?
Talvez não me lembre porque a lembrança dói, ou me lembre demais e , por isso mesmo, procuro anular as reminiscências à flor da pele. A realidade mostra-se delicada; merece, pois, tratamento especial. Tudo o que me acontece é pleno de significação, não sou capaz de fugir das ebulições interiores. Machuco-me à toa. Entre o sim e o não, perseveram inúmeras ondulações que me ferem ou me alegram. A palavra atenua os conflitos. O silêncio eleva à reflexão. O meio termo é a catarse.
Vejo-me um retrato em negativo, sem foco preciso, sem linhas de contorno. Qual o reverso de mim? Os ângulos do meu eu se contrapõem ou se complementam? O inverso parece lacrar o transverso em uma equivalência quase fidedigna. Tenho medo de escandalizar os sentimentos. O fio do novelo, cuja a ponta já não enxergo mais, desemaranha, a expectativa cresce em torno das emoções intermitentes. Espreito o momento oportuno para desabafar. Recolho as dobras do passado no sótão e confio no que guardo ali. A tralha amontoada faz de conta que mimetiza ao elenco das coisas “inúteis”. E vou...
Como se os meus opostos não fizessem parte de mim. E avanço. Não tenho alternativa. A oportunidade perdida mortifica-me. Seu que os ensejos passaram, agora só debruço-me sobre a insipidez do abismo. Não me arvoro a reanimar sensações antigas. Deixo de dizer na hora certa e as delongas simbolizam batalhas perdidas. Mudaram as cenas e eu não mudei.
A quem devo ofertar-me? Qual o endereço da minha vida? Solta no espaço, imagem etérea de mulher sem nome. Na pia batismal, criaram a ficção do meu eu. A água fria, a derramar-se sobre a cabeça, dissolveu por entre as dunas do sal da terr. Chorei diante dos impactos iniciais. Hoje me ensinaram a ter lágrimas. Peregrino desde então...
E guardo o retrato em negativo. E eu, solerte nessa miragem difusa. É dela que brota a inventividade de mim. Os ícones apagados me favorecem porque me recriam na suposta ilusão do rosto fosco. Engano-me?
Claro que sim. O desenho irregular serve para aclarar os desejos em crise. Se não existo no perfil concreto, melhor assim. Que bom saber-me apenas uma aquarela esmaecida! Quero-me afogada em incertezas. Sufocar-me-iam “Ah, mesóclise! rs” as verdades de uma oca oratória. O que faria com o caldo de palavras insossas?Abate-me a enormidade de um cansaço de coisas superficiais. Cumulo-me de essências. Dois retratos se harmonizam: O que acompanha as linhas do tempo, outro que me preserva em opacidade. As escolhas recaem nas definições, incrível.
Apesar dos paradoxos, fortifico-me em pilastras de unidades. Não amo, amei, nem amarei o explícito. Sou adepta visceral das pinturas em brumas. As curvas entre sinuosas me atraem, as vivências à beira do perigo me fascinam, os fios de aço de um trapézio quase celestial me perturbam. Qual a matéria prima da existência? Nem sei mesmo quem sou como saberei de que sou feita?
E não me apetece concluir. O pensamento flui desconexo, emerge de um apelo interior que se acelera à medida que transito no imponderável. Escrevo, escrevo, escrevo e não digo nada.
Prolixidade reinando. Whatever!
O retrato em negativo beneficia-me de vez em quando. O estado mágico da imprecisão. Talvez eu seja uma indefinida reprodução de mim mesma. Em preto e branco.

quinta-feira, setembro 10, 2009

Sinto frio e calor. Sinto fé e desesperança. Medo e alívio. Euforia e depressão. Sinto tudo calar e gritar de um modo assustador. Devastando tudo sem deixar dar vazão. Coisas mudando de uma forma tão voraz e eu aqui, ao lado do abismo, tentando cuidar de mim e do outro que entende ainda menos que eu. Eu ainda tenho pilulas de consciencia enterradas. Tenho uma biografia escrita pelas pontas das agulhas. É, desse jeito é impossível não sentir medo do escuro.
E para sair disso, eu não sei se poderei pagar o pedágio que irão cobrar.
Há um tempo definido nos calendários superpostos em mesas e paredes. Antes, denominavam-se cromos. Cuidadosamente elaborados, os cromos retinham o mesmo objetivo: mensurar o ano em vigência. E a ciranda reprisava em períodos contínuos e irreversíveis.
Os calendários diminuíram, ajustaram-se aos idos da modernidade. Não perderam, todavia, a função de contar a vida. Vivo assinalando, a priori, os acontecimentos futuros. E os espero com a ansiedade dos inocentes. O que mudou ou eu que mudei nesse ritual alheio à vontade?
Abro janelas, fecho portas. Olho o céu, amanheceres ensolarados, excesso de exuberância, aprecio a luminosidade dos astros, a ondulante cintilação, o brilho azul da abóbada estelar. Naufrago, volto a respirar. Afogo-me de novo, e assim vai. Não importa. Se não me esforço por praticar a agudeza da consciência, transformo-me num brinquedo de papel, a voar sem propósito algum.
O espírito de querer ir além do que vejo, me persegue.
E o que é tempo?
Um simples cromo na parede?Uma mudança numerologica? Ou uma liturgia de renovação?
:~~

Quem somos nós, de fato? Freud diria que somos ego, superego e id. Eu diria que somos isso tudo e mais uma mala de viagem perdida. Não há nada mais humilhante, porém revelador, do que se obrigada a desvendar o conteúdo da sua bagagem. Partindo do pressuposto que uma mala está no ápice do sentido metafórico. Parte do nosso cérebro que esconde todas as imperfeições, então mais que justificada a sentença: "mostra-me o que carregas na mala e eu te direi quem és".
Uma variação mais do que satisfatória daquela outra frase que diz ser possível saber quem nós somos pela companhia que escolhemos.
À medida que vamos tornando a nossa 'persona' pública mais complexa, menos queremos que os outros olhem dentro do que há de mais fidedigno em termos de representação pessoal: a nossa mala de viagem.
E toda aquela velha história, desde que o mundo é mundo.
Os ventos de agosto empurraram as nuvens, empurraram as chuvas e as águas, desapartando a briga do inverno com o verão, pare que este chegasse, pontualmente, no lugar da primavera. Em uma lua cheia, cheíssima, quase que um sol de sangue, apareceu setembro.
As velas voltaram ao mar, o povo correu às praias e o sol caiu de vez, despregado do alto, aceso como uma bola de fogo da aurora. A primavera está antecipada. Os animais, as arvores e até as pedras, muito mais que os homens, perceberam a mudança. Os pássaros começaram a cantar uma ninância à nova estação. As abelhas que esperavam flores, sonharam o mel.
O arco-íris pós-diluviano espedaçou as suas sete cores em asas de borboletas. Tudo voa. Tudo canta. Os peixes saíram das águas cegas e profundas. Tudo desliza. As nuvens ficaram mais brancas, as gaivotas mais alvas. As andorinhas saem negras do inverno e cada uma faz o seu verão. Os ares adquiriram uma transparência de vidro, uma visibilidade de cristal. Tudo brilha. Há um leite espargido sobre as coisas. O homem, se não consegue enxergar Deus, consegue vê-lo mais longe e, paradoxalmente, mais próximo dos seus olhos. A primavera puxada a saca-rolha, grassa pelo gargalho da garrafa. Tudo borbulha. Afinal, restando apenas empurram com um sopro de ingratidão, os ventos que trouxeram os sete dias de "7tembro" sopram uma frase de Sören Kierkegaard: "O gênio, como uma tempestade, vai contra o vento".
Eis setembro, o nono mês do ano civil, nos calendários, nos cromos, nas folhinhas, com seus trinta dias consagrados a Vulcano, o coxo deus que atiça as suas forjas. Os signos do mês (“virgem e libra”, parecem designar... se me permitem os astrólogos. A permanência da oscilação. No dia da mudança é o equinócio: a noite tem o dia por medida. Mais do que um mês, setembro é gestação, ele nos dá luz, nos dá à luz.
Despidos de casacos de julho e agosto, já ficamos vestidos de setembro.
O sol acende a sombra, os coqueiros estão tontos de imitar as ondas e as casuarinas roucas de imitar o silêncio. Do mar, a cor é um verde tão azul, que o espelho parece ser o céu. Se Narciso, um dingue vermelho de vela alvirrubra, vive inquieto para entrar na água, continuo achando o tempo bom para ver tudo e não fazer nada. Enfim, um dia de férias em vez de um mês. Ou melhor, um mês de férias em um dia.
Na rede tripla, não consigo dormir durante o dia, mal consigo dormir durante a noite, mas posso dividi-la em setembro.
Janeiro rima com fevereiro, assim como novembro com dezembro, mas setembro não tem rima, quero dizer, a sua rima está isolada por outubro. Setembro mão é só, setembro é sol. Setembro não é um, setembro é único.