Há um tempo definido nos calendários superpostos em mesas e paredes. Antes, denominavam-se cromos. Cuidadosamente elaborados, os cromos retinham o mesmo objetivo: mensurar o ano em vigência. E a ciranda reprisava em períodos contínuos e irreversíveis.
Os calendários diminuíram, ajustaram-se aos idos da modernidade. Não perderam, todavia, a função de contar a vida. Vivo assinalando, a priori, os acontecimentos futuros. E os espero com a ansiedade dos inocentes. O que mudou ou eu que mudei nesse ritual alheio à vontade?
Abro janelas, fecho portas. Olho o céu, amanheceres ensolarados, excesso de exuberância, aprecio a luminosidade dos astros, a ondulante cintilação, o brilho azul da abóbada estelar. Naufrago, volto a respirar. Afogo-me de novo, e assim vai. Não importa. Se não me esforço por praticar a agudeza da consciência, transformo-me num brinquedo de papel, a voar sem propósito algum.
O espírito de querer ir além do que vejo, me persegue.
E o que é tempo?
Um simples cromo na parede?Uma mudança numerologica? Ou uma liturgia de renovação?
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Quem somos nós, de fato? Freud diria que somos ego, superego e id. Eu diria que somos isso tudo e mais uma mala de viagem perdida. Não há nada mais humilhante, porém revelador, do que se obrigada a desvendar o conteúdo da sua bagagem. Partindo do pressuposto que uma mala está no ápice do sentido metafórico. Parte do nosso cérebro que esconde todas as imperfeições, então mais que justificada a sentença: "mostra-me o que carregas na mala e eu te direi quem és".
Uma variação mais do que satisfatória daquela outra frase que diz ser possível saber quem nós somos pela companhia que escolhemos.
À medida que vamos tornando a nossa 'persona' pública mais complexa, menos queremos que os outros olhem dentro do que há de mais fidedigno em termos de representação pessoal: a nossa mala de viagem.
E toda aquela velha história, desde que o mundo é mundo.
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