O sol clareia lá fora. Ninguém me vê. Os olhos piscam insistentemente à procura de uma meia-luz, que seja.
Vou e volto na lentidão da busca. Não me satisfaz acelerar o advir. Há tanta miragem a ser recriada neste despretensioso espaço que tudo parece começar agora.
Começo. Isolada ao canto esquerdo, tateio os extremos de ausência. Espio a nudez do chão na certeza de que os tempos fervilham no ar, fortalecendo a ancestralidade. Estou só. Não quero companhia. Qualquer diálogo quebraria a lucidez do gesto. Fui até onde não devia, cabe-me agora, arcar com as possíveis conseqüências. Trago no peito a droga da emoção. Faço uso, quando perco a cabeça, nem sempre se resume a portentosos renascimentos. Desprezo o que antes se fez ali. Meu ofício não é inventar, é remoer memórias. Brinco com o espaço que se alarga pouco a pouco no infinito do que me apraz. As horas tentam me sugar, mas escapo, driblo minutos e segundos, vigio o relógio inexistente. Diante da imagem, recuo. Não posso duvidar da minha parábola. A antiguidade representa o único recurso que me valho para vigorar a seiva das coisas findas.
...o quarto cresce pra dentro. Tenho medo das distâncias interiores. Penetro nos recôncavos de um corpo frágil e débil. Encolho. Abstraio o visível. Toco no imponderável e eis-me no absurdo de um espaço sem princípio nem fim. Estou a meio, a gravitar sobre o pequeno universo que me hospeda. Que "albergue" será esse? De repente, retorno à incurável timidez. Quantos amores deixei perecer à revelia? Que faço agora? Reabro a porta do túnel de um calendário vencido? Acode-me o frenesi de aproveitar a vida. Com a firme consciência dos que abandonaram desejos ao longo da estrada. Desde que comecei a escrever, passaram cinco minutos. Aproveitei? Se me escaparam, o que direi dos outros minutos? Idealizo a imagem do que nunca quis em verdade. Traços incertos e irregulares perfilam uma figura um tanto indecifrável. Há tantos intervalos entre mim e "eu" mesma. Não importa o pontilhado de um desenho em tela assimétrica. Reduzirei a lupa invasora para evitar inelutáveis enganos. Desde muito, já nem me recordo quando, talvez em um inverno enlameado de outrora, cobicei a discrição dos anacoretas. Não obstante da inclinação aos esconderijos, represo muralhas de vontades que se vão interpondo em uma cadência voluptuosa. Não consigo deter as pulsões que me instigam. Ainda bem que assim vivo, ao modo de um turbilhão inconformado, prestes a rebentar os sentimentos que se levantam à minha frente. Ah, quem me dera a liberdade das venturas inconscientes! Se desabarem as barreiras que me sufocam, irei me refugiar nas prateleiras desérticas do meu eu. Há recantos não preenchidos, sei que há. Resta-me o garimpo do querer, torná-lo possível também. Não receio os descompassos que regulam a bússola hesitante. Peço por pontos de fuga, passagens secretas para os casulos da alma. Ando escondida do mundo. Essa é a verdadeira história de quem não tem o que narrar rs.
Encho linhas vazias, eu, a própria imensidão do vazio no quarto desabitado. Longe de qualquer apreensão da realidade, assumo a intrepidez de dizer: existo
Embora haja "apesar de".
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