Os ventos de agosto empurraram as nuvens, empurraram as chuvas e as águas, desapartando a briga do inverno com o verão, pare que este chegasse, pontualmente, no lugar da primavera. Em uma lua cheia, cheíssima, quase que um sol de sangue, apareceu setembro.
As velas voltaram ao mar, o povo correu às praias e o sol caiu de vez, despregado do alto, aceso como uma bola de fogo da aurora. A primavera está antecipada. Os animais, as arvores e até as pedras, muito mais que os homens, perceberam a mudança. Os pássaros começaram a cantar uma ninância à nova estação. As abelhas que esperavam flores, sonharam o mel.
O arco-íris pós-diluviano espedaçou as suas sete cores em asas de borboletas. Tudo voa. Tudo canta. Os peixes saíram das águas cegas e profundas. Tudo desliza. As nuvens ficaram mais brancas, as gaivotas mais alvas. As andorinhas saem negras do inverno e cada uma faz o seu verão. Os ares adquiriram uma transparência de vidro, uma visibilidade de cristal. Tudo brilha. Há um leite espargido sobre as coisas. O homem, se não consegue enxergar Deus, consegue vê-lo mais longe e, paradoxalmente, mais próximo dos seus olhos. A primavera puxada a saca-rolha, grassa pelo gargalho da garrafa. Tudo borbulha. Afinal, restando apenas empurram com um sopro de ingratidão, os ventos que trouxeram os sete dias de "7tembro" sopram uma frase de Sören Kierkegaard: "O gênio, como uma tempestade, vai contra o vento".
Eis setembro, o nono mês do ano civil, nos calendários, nos cromos, nas folhinhas, com seus trinta dias consagrados a Vulcano, o coxo deus que atiça as suas forjas. Os signos do mês (“virgem e libra”, parecem designar... se me permitem os astrólogos. A permanência da oscilação. No dia da mudança é o equinócio: a noite tem o dia por medida. Mais do que um mês, setembro é gestação, ele nos dá luz, nos dá à luz.
Despidos de casacos de julho e agosto, já ficamos vestidos de setembro.
O sol acende a sombra, os coqueiros estão tontos de imitar as ondas e as casuarinas roucas de imitar o silêncio. Do mar, a cor é um verde tão azul, que o espelho parece ser o céu. Se Narciso, um dingue vermelho de vela alvirrubra, vive inquieto para entrar na água, continuo achando o tempo bom para ver tudo e não fazer nada. Enfim, um dia de férias em vez de um mês. Ou melhor, um mês de férias em um dia.
Na rede tripla, não consigo dormir durante o dia, mal consigo dormir durante a noite, mas posso dividi-la em setembro.
Janeiro rima com fevereiro, assim como novembro com dezembro, mas setembro não tem rima, quero dizer, a sua rima está isolada por outubro. Setembro mão é só, setembro é sol. Setembro não é um, setembro é único.
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