quinta-feira, setembro 10, 2009

Há um tempo definido nos calendários superpostos em mesas e paredes. Antes, denominavam-se cromos. Cuidadosamente elaborados, os cromos retinham o mesmo objetivo: mensurar o ano em vigência. E a ciranda reprisava em períodos contínuos e irreversíveis.
Os calendários diminuíram, ajustaram-se aos idos da modernidade. Não perderam, todavia, a função de contar a vida. Vivo assinalando, a priori, os acontecimentos futuros. E os espero com a ansiedade dos inocentes. O que mudou ou eu que mudei nesse ritual alheio à vontade?
Abro janelas, fecho portas. Olho o céu, amanheceres ensolarados, excesso de exuberância, aprecio a luminosidade dos astros, a ondulante cintilação, o brilho azul da abóbada estelar. Naufrago, volto a respirar. Afogo-me de novo, e assim vai. Não importa. Se não me esforço por praticar a agudeza da consciência, transformo-me num brinquedo de papel, a voar sem propósito algum.
O espírito de querer ir além do que vejo, me persegue.
E o que é tempo?
Um simples cromo na parede?Uma mudança numerologica? Ou uma liturgia de renovação?
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Quem somos nós, de fato? Freud diria que somos ego, superego e id. Eu diria que somos isso tudo e mais uma mala de viagem perdida. Não há nada mais humilhante, porém revelador, do que se obrigada a desvendar o conteúdo da sua bagagem. Partindo do pressuposto que uma mala está no ápice do sentido metafórico. Parte do nosso cérebro que esconde todas as imperfeições, então mais que justificada a sentença: "mostra-me o que carregas na mala e eu te direi quem és".
Uma variação mais do que satisfatória daquela outra frase que diz ser possível saber quem nós somos pela companhia que escolhemos.
À medida que vamos tornando a nossa 'persona' pública mais complexa, menos queremos que os outros olhem dentro do que há de mais fidedigno em termos de representação pessoal: a nossa mala de viagem.
E toda aquela velha história, desde que o mundo é mundo.
Os ventos de agosto empurraram as nuvens, empurraram as chuvas e as águas, desapartando a briga do inverno com o verão, pare que este chegasse, pontualmente, no lugar da primavera. Em uma lua cheia, cheíssima, quase que um sol de sangue, apareceu setembro.
As velas voltaram ao mar, o povo correu às praias e o sol caiu de vez, despregado do alto, aceso como uma bola de fogo da aurora. A primavera está antecipada. Os animais, as arvores e até as pedras, muito mais que os homens, perceberam a mudança. Os pássaros começaram a cantar uma ninância à nova estação. As abelhas que esperavam flores, sonharam o mel.
O arco-íris pós-diluviano espedaçou as suas sete cores em asas de borboletas. Tudo voa. Tudo canta. Os peixes saíram das águas cegas e profundas. Tudo desliza. As nuvens ficaram mais brancas, as gaivotas mais alvas. As andorinhas saem negras do inverno e cada uma faz o seu verão. Os ares adquiriram uma transparência de vidro, uma visibilidade de cristal. Tudo brilha. Há um leite espargido sobre as coisas. O homem, se não consegue enxergar Deus, consegue vê-lo mais longe e, paradoxalmente, mais próximo dos seus olhos. A primavera puxada a saca-rolha, grassa pelo gargalho da garrafa. Tudo borbulha. Afinal, restando apenas empurram com um sopro de ingratidão, os ventos que trouxeram os sete dias de "7tembro" sopram uma frase de Sören Kierkegaard: "O gênio, como uma tempestade, vai contra o vento".
Eis setembro, o nono mês do ano civil, nos calendários, nos cromos, nas folhinhas, com seus trinta dias consagrados a Vulcano, o coxo deus que atiça as suas forjas. Os signos do mês (“virgem e libra”, parecem designar... se me permitem os astrólogos. A permanência da oscilação. No dia da mudança é o equinócio: a noite tem o dia por medida. Mais do que um mês, setembro é gestação, ele nos dá luz, nos dá à luz.
Despidos de casacos de julho e agosto, já ficamos vestidos de setembro.
O sol acende a sombra, os coqueiros estão tontos de imitar as ondas e as casuarinas roucas de imitar o silêncio. Do mar, a cor é um verde tão azul, que o espelho parece ser o céu. Se Narciso, um dingue vermelho de vela alvirrubra, vive inquieto para entrar na água, continuo achando o tempo bom para ver tudo e não fazer nada. Enfim, um dia de férias em vez de um mês. Ou melhor, um mês de férias em um dia.
Na rede tripla, não consigo dormir durante o dia, mal consigo dormir durante a noite, mas posso dividi-la em setembro.
Janeiro rima com fevereiro, assim como novembro com dezembro, mas setembro não tem rima, quero dizer, a sua rima está isolada por outubro. Setembro mão é só, setembro é sol. Setembro não é um, setembro é único.

sexta-feira, agosto 21, 2009

Costumo trancar afetos, cheiros, memórias. Se ainda fosse o caso de pedir silêncio, como seria fácil...eu me deitaria, fingindo de doente e teria paz, mas meu silêncio é a minha lâmina.

"Ainda tem o seu perfume pela casa, ainda tem você na sala.Porque meu coração dispara?
Quando tem o seu cheiro dentro de um livro, dentro da noite veloz..."

segunda-feira, agosto 10, 2009

Olho o relógio, mais uma vez me atraso. Os ponteiros indicam a cronologia perdida. As horas me devoram como um leão faminto à caça de uma boa presa. Vou para um lado, vou para outro, perco-me no emaranhado das linhas soltas. Nem sei por onde começar, o dia está cheio, a agenda repleta de compromissos, homens e mulheres transitam apressados, não há tempo para uma conversa descontraída, inquietações giram ao redor, cansaços aumentam, a fadiga se instala, absolutamente exaurida.
“Em vão tento me explicar, os muros são surdos”
Ligo, falo com um, com outro, aceno para desconhecidos, brota uma superficialidade que se traduz em atos mecânicos, os murmúrios nem sempre contradizem com o que almejo, a respiração ofega, o transito não avança, tenho hora marcada. Para onde vou realmente? ‘O que desatou num só momento, não cabe no infinito, e é fuga e vento’
O vazio me invade, carrego o peso inexorável das insignificâncias. Mas a jornada ainda exige esforço físico e mental. Enredo-me nos cruzamentos, já nem me reconheço. O anoitecer inicia, a nuvem pesada deságua, o corpo se molha, o velho hábito de não levar guarda chuva. Desisto do dia, volto. ‘“Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase”.
Entro em casa, jogo as roupas no chão do quarto e tomo uma ducha, entrego-me à beatificação da água, refestelo-me na cama, fecho os olhos...
Recapitulo a azafama dos momentos anteriores, a cabeça se atordoa o labirinto dos volteios me enlouquece. Não guardei o seu destino, então me perdi o caminho de volta.
“Porém meus olhos não perguntam nada”
O silêncio me acalma à semelhança de uma ducha de paz. Mas ainda escuto o burburinho da rua. E, sobretudo, assisto à desenfreada competição da humanidade.
Os valores inexistem, a corrida pelo pódio se acelera, todos aclamam os vencedores, só há lugar para troféus; aos perdedores, a melancolia da derrota. O corpo se retrai em repúdio ao desmantelo do cotidiano. A roda-viva fortalece o desgaste diário, a sensação é de tédio. O ambiente escuro me agrada e associa-se ao silêncio numa cumplicidade inatingível e, no entanto, absorvo a aliança bendita.
Clamo por afagos: quase pareceram no afã dos acontecimentos. Vulnerável, frágil, um vidro fino que se arranha à toa. E o palco da vida reclama personagens hercúleos, valentes, prontos para batalhas. “Tudo é possível, só eu impossível”
Acendo a luz num ato de bravura. Soergo-me do dia estafante. Passo uma esponja nos inevitáveis atropelos. Respiro fundo, sou outra mulher, amiga da noite e da serenidade. Entre luzes e sombras penso melhor. Reinvento as circunstâncias, descubro lembranças na mansidão da penumbra. “Estou escura, estou rigorosamente noturna, estou vazia”.
Trago, contudo, forças que me impelem a vigiar fotos. Aquela, é..me chama atenção. Olha-me com doçura, os lábios balbuciam. “Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão”.
E a noite me acalanta, trazendo-me o afeto. E mais uma vez eu deixo passear na superfície.

De vez em quando, nós!

.Ciclo vicioso doentio.

quarta-feira, julho 29, 2009

Dias avulsos

Um frio estranho espalhou-se pelo corpo, as mãos afagavam os labios silenciosos, alguma coisa precisava ser dita. O que falar? A cena voltava nos minimos detalhes, frases cortadas, desprezo, ódio, raiva. E agora o vazio invadia, tal qual um saco plastico cheio de ar que acabara de ser alfinetado. Havia apenas vulnerabilidades, nada mais. O medo embaçava as ideias, não queria voltar. Como enfrentar as ruinas de um sentimento tão vivo quanto o sangue que pulsa nas suas veias?
O amor pode unificar, o ódio mais ainda, todavia, ligaçoes de odio possuem mais intensidade, as de amor, talvez uma essência da eternidade. Talvez uma força motriz, fluindo como um todo em elos indestrutíveis, em ciclos intermináveis.Em alguns momentos, cheguei ao ápice do egoísmo, até que levei tudo para o abismo.A vida vai tecendo a teia, nos deixa proximos de alguns, afastando de outros. Pode nos levar a compreensão de algumas verdades não ditas.
Morri!
Dividi-me em duas partes, faço questão de habitar o inferno particular e sorrindo, posso esconder dos 'meus' demônios, as minhas verdades.
É, o dia nasceu melancólico, o céu meio turvo, mas não chovera.

Pior do que a tua voz que cala, é o meu silêncio que fala.

quarta-feira, julho 22, 2009

O virtuoso invade os sentidos, numa simbiose entre a arte e o jeito de amar a rotina. Jeito singular, um tanto nietzschiano: todos os momentos devem ser transformados em obra de arte.
A vida está aqui a palpitar, a latejar, a pulsar em veias inquietas, buliçosas.
Já carrego uma biografia longa.Páginas e páginas de um diário não escrito;calmamente me assegura a garantia do instante.
No recanto de paz, percebo os gestos sinceros, os laços visíveis, alguma amizade reforçada por uma cadeia ascendente.
Nada de novo nas narrativas. E, no entanto, o lacre das "antiguidades" confirmava pactos anteriores...
Minutos eternizantes e eternizados que nao se esvaem com a voragem do calendário.
A memória encarrega de armazenar o que de belo se conserva na trajetória existencial; As ternas sensações vão se superpondo nas gavetas perras do inconsciente.
Então, sinto-me mais rica de lembranças.

quarta-feira, julho 01, 2009

Estou sempre em briga com o tempo. Os ponteiros do relógio disparam na direção conhecida, a mesma, a meeesma; a circularidade não se modifica, os segundos são absolutamente únicos, as minhas pegadas não escoltam o ritmo frenético. Há um descompasso entre o tempo e a cadência que se move. Sou devagar. Tenho necessidade de refletir sobre o mínimo acontecimento, não gosto de me aturdir com os barulhos exteriores, nem com as festanças retumbantes, nem com o vozerio alheio; meus embalos são lentos, vagarosos, sumarentos, gota a gota. Talvez esta seja a razão de uma vida em permanente susto. De repente, o instante se esvai...vão-se as intenções de uma nova tecelagem. E, eu, pasma diante da célere roleta. Porque o mundo me assusta?
Lembro-me que em criança os olhos se arregalavam com freqüência. Foi não foi, o ar de admiração me tomava. Pronunciava uma tempestade de interjeições fora de lugar. Estive à margem de episódios comuns, corriqueiros, até prosaicos, tão cotidianos que ninguém se alterava, rosto algum se aborrecia diante de partituras desafinadas; Afinal, faziam parte da rotina e, no entanto, a mim me pareciam estranhas.
Insatisfeita com acenos desatinados.
De pouco serviram, entretanto, os meus espantos.
A acelerada competição entre os homens me apavora. A vaidade, a inveja e a soberba me afastam dos 'palcos iluminados'.
Indignação é grito de desabafo, toda vida, ninguém escuta.
E o medo medra, o corpo fala; Reage; Não é assim, como será?
Retraio-me.
Continuo pasma, atônita...paralisada.
Sentir transformou-se num verbo que não conjugo a toda hora.
Não importa a latitude nem a distância geográfica. Venho de longe: emoções nem sempre me paramentam, quero-me assim, vendo, ouvindo, perscrutanto, deixando que os volteios me emudeçam; Vou e volto; Conheço alguns esconderijos; Refugio-me ou sigo: Os atalhos me ajudam...
Há ruas estreitas e largas.
Não me canso de perder-me. Nunca sei onde estou e para onde vou.
Carrego um enigmático traçado dentro de mim, recolho mapas quase arqueológicos, ainda que não perceba as rotas de orientação.
No meu estado de permanente espanto, vivo em busca de alguma coisa que nem sei bem o que é.
Apraz-me esta errática sensação. Prossigo para alcançar operdido, nunca o encontro.
O 'afã' de querer dá sentindo à vida.
Ninguém pode aceitar o desejo enfraquecido, dele depende a corrente sangüínea da vontade.
As veias latejam pulsões antigas e esquecidas.
Todo amanhecer aponta para horizontes que nem sempre alcançamos, mas a bússola serve de norte paraaproximar ou afastaros passos do dia-a-dia. Pela manhã, a alvorada; À noite, o crepusculo. Ao meio...a construção do tempo.
Se tivesse que escrever a minha historia, necessitaria dos fios da meada daquilo que não fiz; São as interrupçoes que me preocupam, as rupturas também. Arrependo-me de algumas desistências; Abdicar representa um fracasso irreversível.
Enquanto retornar revela a força de uma hercúlea coragem. Quem disse que voltar é retrocesso? Pode ser uma grande saída. Às vezes, a única. Quantas vezes me perdi no caminho de volta? Inúmeras...
E, assim, pasma!
O tempo é a minha matéria. Não sou capaz de mensurá-lo porque o relógio se adianta para alguém da lerda senda, entretanto urge distribuí-lo com eqüilíbrio, pdaços iguais ou diferentes, a depender da intensidade dos apelos.
Tenho tantas dívidas afetivas que nem me sinto apta a saldá-las.
Ora, debruço-me sobre uma, ora, sobre outra; E, no vagar das horas, resolvo o que há de mais importante.
O ócio fortalece o pensamento, agasalhando divagações imprescindívéis ao inventário da vida. Buscando, buscando...deparo-me com vários sobressaltos.
Não pretendo transmudar-me numa coisa oca, protegida por falsas armadilhas. Prefiro continuar hesitante. A tergiversar, sem definições.