sexta-feira, agosto 21, 2009

Costumo trancar afetos, cheiros, memórias. Se ainda fosse o caso de pedir silêncio, como seria fácil...eu me deitaria, fingindo de doente e teria paz, mas meu silêncio é a minha lâmina.

"Ainda tem o seu perfume pela casa, ainda tem você na sala.Porque meu coração dispara?
Quando tem o seu cheiro dentro de um livro, dentro da noite veloz..."

segunda-feira, agosto 10, 2009

Olho o relógio, mais uma vez me atraso. Os ponteiros indicam a cronologia perdida. As horas me devoram como um leão faminto à caça de uma boa presa. Vou para um lado, vou para outro, perco-me no emaranhado das linhas soltas. Nem sei por onde começar, o dia está cheio, a agenda repleta de compromissos, homens e mulheres transitam apressados, não há tempo para uma conversa descontraída, inquietações giram ao redor, cansaços aumentam, a fadiga se instala, absolutamente exaurida.
“Em vão tento me explicar, os muros são surdos”
Ligo, falo com um, com outro, aceno para desconhecidos, brota uma superficialidade que se traduz em atos mecânicos, os murmúrios nem sempre contradizem com o que almejo, a respiração ofega, o transito não avança, tenho hora marcada. Para onde vou realmente? ‘O que desatou num só momento, não cabe no infinito, e é fuga e vento’
O vazio me invade, carrego o peso inexorável das insignificâncias. Mas a jornada ainda exige esforço físico e mental. Enredo-me nos cruzamentos, já nem me reconheço. O anoitecer inicia, a nuvem pesada deságua, o corpo se molha, o velho hábito de não levar guarda chuva. Desisto do dia, volto. ‘“Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase”.
Entro em casa, jogo as roupas no chão do quarto e tomo uma ducha, entrego-me à beatificação da água, refestelo-me na cama, fecho os olhos...
Recapitulo a azafama dos momentos anteriores, a cabeça se atordoa o labirinto dos volteios me enlouquece. Não guardei o seu destino, então me perdi o caminho de volta.
“Porém meus olhos não perguntam nada”
O silêncio me acalma à semelhança de uma ducha de paz. Mas ainda escuto o burburinho da rua. E, sobretudo, assisto à desenfreada competição da humanidade.
Os valores inexistem, a corrida pelo pódio se acelera, todos aclamam os vencedores, só há lugar para troféus; aos perdedores, a melancolia da derrota. O corpo se retrai em repúdio ao desmantelo do cotidiano. A roda-viva fortalece o desgaste diário, a sensação é de tédio. O ambiente escuro me agrada e associa-se ao silêncio numa cumplicidade inatingível e, no entanto, absorvo a aliança bendita.
Clamo por afagos: quase pareceram no afã dos acontecimentos. Vulnerável, frágil, um vidro fino que se arranha à toa. E o palco da vida reclama personagens hercúleos, valentes, prontos para batalhas. “Tudo é possível, só eu impossível”
Acendo a luz num ato de bravura. Soergo-me do dia estafante. Passo uma esponja nos inevitáveis atropelos. Respiro fundo, sou outra mulher, amiga da noite e da serenidade. Entre luzes e sombras penso melhor. Reinvento as circunstâncias, descubro lembranças na mansidão da penumbra. “Estou escura, estou rigorosamente noturna, estou vazia”.
Trago, contudo, forças que me impelem a vigiar fotos. Aquela, é..me chama atenção. Olha-me com doçura, os lábios balbuciam. “Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão”.
E a noite me acalanta, trazendo-me o afeto. E mais uma vez eu deixo passear na superfície.

De vez em quando, nós!

.Ciclo vicioso doentio.

quarta-feira, julho 29, 2009

Dias avulsos

Um frio estranho espalhou-se pelo corpo, as mãos afagavam os labios silenciosos, alguma coisa precisava ser dita. O que falar? A cena voltava nos minimos detalhes, frases cortadas, desprezo, ódio, raiva. E agora o vazio invadia, tal qual um saco plastico cheio de ar que acabara de ser alfinetado. Havia apenas vulnerabilidades, nada mais. O medo embaçava as ideias, não queria voltar. Como enfrentar as ruinas de um sentimento tão vivo quanto o sangue que pulsa nas suas veias?
O amor pode unificar, o ódio mais ainda, todavia, ligaçoes de odio possuem mais intensidade, as de amor, talvez uma essência da eternidade. Talvez uma força motriz, fluindo como um todo em elos indestrutíveis, em ciclos intermináveis.Em alguns momentos, cheguei ao ápice do egoísmo, até que levei tudo para o abismo.A vida vai tecendo a teia, nos deixa proximos de alguns, afastando de outros. Pode nos levar a compreensão de algumas verdades não ditas.
Morri!
Dividi-me em duas partes, faço questão de habitar o inferno particular e sorrindo, posso esconder dos 'meus' demônios, as minhas verdades.
É, o dia nasceu melancólico, o céu meio turvo, mas não chovera.

Pior do que a tua voz que cala, é o meu silêncio que fala.

quarta-feira, julho 22, 2009

O virtuoso invade os sentidos, numa simbiose entre a arte e o jeito de amar a rotina. Jeito singular, um tanto nietzschiano: todos os momentos devem ser transformados em obra de arte.
A vida está aqui a palpitar, a latejar, a pulsar em veias inquietas, buliçosas.
Já carrego uma biografia longa.Páginas e páginas de um diário não escrito;calmamente me assegura a garantia do instante.
No recanto de paz, percebo os gestos sinceros, os laços visíveis, alguma amizade reforçada por uma cadeia ascendente.
Nada de novo nas narrativas. E, no entanto, o lacre das "antiguidades" confirmava pactos anteriores...
Minutos eternizantes e eternizados que nao se esvaem com a voragem do calendário.
A memória encarrega de armazenar o que de belo se conserva na trajetória existencial; As ternas sensações vão se superpondo nas gavetas perras do inconsciente.
Então, sinto-me mais rica de lembranças.

quarta-feira, julho 01, 2009

Estou sempre em briga com o tempo. Os ponteiros do relógio disparam na direção conhecida, a mesma, a meeesma; a circularidade não se modifica, os segundos são absolutamente únicos, as minhas pegadas não escoltam o ritmo frenético. Há um descompasso entre o tempo e a cadência que se move. Sou devagar. Tenho necessidade de refletir sobre o mínimo acontecimento, não gosto de me aturdir com os barulhos exteriores, nem com as festanças retumbantes, nem com o vozerio alheio; meus embalos são lentos, vagarosos, sumarentos, gota a gota. Talvez esta seja a razão de uma vida em permanente susto. De repente, o instante se esvai...vão-se as intenções de uma nova tecelagem. E, eu, pasma diante da célere roleta. Porque o mundo me assusta?
Lembro-me que em criança os olhos se arregalavam com freqüência. Foi não foi, o ar de admiração me tomava. Pronunciava uma tempestade de interjeições fora de lugar. Estive à margem de episódios comuns, corriqueiros, até prosaicos, tão cotidianos que ninguém se alterava, rosto algum se aborrecia diante de partituras desafinadas; Afinal, faziam parte da rotina e, no entanto, a mim me pareciam estranhas.
Insatisfeita com acenos desatinados.
De pouco serviram, entretanto, os meus espantos.
A acelerada competição entre os homens me apavora. A vaidade, a inveja e a soberba me afastam dos 'palcos iluminados'.
Indignação é grito de desabafo, toda vida, ninguém escuta.
E o medo medra, o corpo fala; Reage; Não é assim, como será?
Retraio-me.
Continuo pasma, atônita...paralisada.
Sentir transformou-se num verbo que não conjugo a toda hora.
Não importa a latitude nem a distância geográfica. Venho de longe: emoções nem sempre me paramentam, quero-me assim, vendo, ouvindo, perscrutanto, deixando que os volteios me emudeçam; Vou e volto; Conheço alguns esconderijos; Refugio-me ou sigo: Os atalhos me ajudam...
Há ruas estreitas e largas.
Não me canso de perder-me. Nunca sei onde estou e para onde vou.
Carrego um enigmático traçado dentro de mim, recolho mapas quase arqueológicos, ainda que não perceba as rotas de orientação.
No meu estado de permanente espanto, vivo em busca de alguma coisa que nem sei bem o que é.
Apraz-me esta errática sensação. Prossigo para alcançar operdido, nunca o encontro.
O 'afã' de querer dá sentindo à vida.
Ninguém pode aceitar o desejo enfraquecido, dele depende a corrente sangüínea da vontade.
As veias latejam pulsões antigas e esquecidas.
Todo amanhecer aponta para horizontes que nem sempre alcançamos, mas a bússola serve de norte paraaproximar ou afastaros passos do dia-a-dia. Pela manhã, a alvorada; À noite, o crepusculo. Ao meio...a construção do tempo.
Se tivesse que escrever a minha historia, necessitaria dos fios da meada daquilo que não fiz; São as interrupçoes que me preocupam, as rupturas também. Arrependo-me de algumas desistências; Abdicar representa um fracasso irreversível.
Enquanto retornar revela a força de uma hercúlea coragem. Quem disse que voltar é retrocesso? Pode ser uma grande saída. Às vezes, a única. Quantas vezes me perdi no caminho de volta? Inúmeras...
E, assim, pasma!
O tempo é a minha matéria. Não sou capaz de mensurá-lo porque o relógio se adianta para alguém da lerda senda, entretanto urge distribuí-lo com eqüilíbrio, pdaços iguais ou diferentes, a depender da intensidade dos apelos.
Tenho tantas dívidas afetivas que nem me sinto apta a saldá-las.
Ora, debruço-me sobre uma, ora, sobre outra; E, no vagar das horas, resolvo o que há de mais importante.
O ócio fortalece o pensamento, agasalhando divagações imprescindívéis ao inventário da vida. Buscando, buscando...deparo-me com vários sobressaltos.
Não pretendo transmudar-me numa coisa oca, protegida por falsas armadilhas. Prefiro continuar hesitante. A tergiversar, sem definições.

quarta-feira, junho 17, 2009

Silêncios, o silêncio!


Movida a ritmos ou falta deles. Gosto de andar por aí, despida de qualquer compromisso, olhar o mar, sentir aquele cheiro, apreciar a lua, apontar para as estrelas, pisar em areia virgem. Mas gosto, sobretudo, de recolher-me ao claustro, vigiar a chama da vela acesa, transformando-se, transformando-me..., deixar que pensamentos me invadam; Então sou pura imaginação, sequer sei o que se passa fora do meu quadrilátero de aconchego. Ouço música, permito inventar-me do jeito que eu quero.
Sobre a fina epiderme, assalta-me uma sensação de felicidade quase orgânica. Estou livre do mundo exterior ou ligada a ele pelo universo dos sentidos.
Fabrico e refabrico os desejos perdidos lá atrás.O prazer pelo silêncio é imenso, pela mansidão das palavras não ditas, por lábios que sibilam o inaudível. A essência não precisa ser pronunciada. Escuto-me, digo-me tantas vezes o que não devo, que calo-me em susto. Ouço as palpitações, um turbilhão interior agasalha o espírito, confortando-me. Conheço um mínimo da minha alma, que seja! E, no entanto, como ela me engana com as suas imprevistas ciladas. Antes assim...as linearidades não favorecem o crescimento individual. Estou convicta que as pulsações representam a semente de qualquer maturidade. Multiplico-me em sentido côncavo e, a cada movimento intimista, converto-me em um baobá de raízes seculares.
Neste momento, perscruto o relógio: são onze horas da noite e vinte e um minutos, chove, o vento uiva pela fresta da janela, os homens dormem, as árvores balançam, faz frio. O corpo, o meu, alberga-se em tecido mais espesso, encolhido ao seu canto, já rogou por amparo, mas existem apenas os ruídos da natureza, os ecos sonoros da chuva e do vento que acalantam o silêncio que me habita. Nada macula o estado de recolhimento.
Entre a menina andeja que visita a cidade, deambulando por ruas e mais ruas, indo e voltando, vigiando os lugares mais ermos, e a menina que esconde intencionalmente entre quatro paredes, em absoluto repouso do dia, pausa necessária à existência, luz apagada, somente a vela mostrando a chama ardente, mutação, fogo vibrante, não se apontam divisões, sim laços interativos.É preciso fugir para regressar ao epicentro do ser. Vontades díspares enriquecem o advir.Há o partir e o chegar. Na balança pendular, constato, entretanto, a forte propensão à condição de...sei lá!
Sou outra em retraimento. O oxigênio da quietude aumenta as forças, renovo-me, acato os fantasmas que me acalmam, nenhuma estranheza emerge desse estágio letárgico. E a alma no êxtase da serenidade.

Porque gosto tanto da reclusão? Por temperamento, cativam-me visões profundas, assíduas, indagnações, uma espécie de vivência introspectiva, o imo à procura de grutas ocultas, secretas, desérticas. Nunca almejei atender aos anseios, há que se manter uma parte de si encoberta pela fumaça dos mistérios, alguns mais próximos, outros mais distantes, todos pertencentes ao mesmo tronco identitário. Não quero simplificações!Tampouco acreditar em retratos apressados, nem sei definir-me.
Bastam-me os elos enredados entre si, como uma teia de aranha bem tecida.Só, no silência monástico, guardo-me em fortalezas que ainda entrontro em pilares destroçados.
A muralha não é de pedra, mas é de uma invisível "solidão" que se constói. Edifico dia após dia a malha de bilros, clarividências, desenhos indecifráveis ( O dadaísmo me salva nessas horas, ok).
Nem sempre o resultado é compatível com a esperança depositada na laboriosa fabricação. Todo trabalho de construção interior possui valor em si mesmo.
Que esforço desprendo para ser completamente inteira. Esforço talvez inútil. Por isso, caminho em estradas e estradas, acabo me refugiando em prolongados 'retiros', ora mais meditativa que andeja, ou vice-versa.
De qualquer forma, o pensamento me acompanha na agudeza da introspecção, no que é percebido pelo sentimento, no que o coração fisga com mais vigor. Faço da minha vida um exercício perene de autoconhecimento. E eu nunca sei quem sou.


"Tenho fases como a lua, dases de andar escondida, fases de vir pra rua"

quinta-feira, junho 04, 2009

Em tempos aparentemente intensos a místicas transcendências, cujo obsessivo racionalismo fere no nascedouro o próprio conceito de sobrenatural. Onde estão, onde estais?
Como a neve (ou açúcar), dissolveu-se. Já não ousam abrir as portas do visível vir e habitar, ou pelo menos passear aqui, dentro de mim. É como se vivos e mortos, cada um com o seu lado, já não soubessem se imaginar: uns e outros atrelados à radicalidade do ser e do não ser ou ao visgo da 'esterilidade', não da duvida, mas das certezas que impedem a 'poesia' de um convívio.
É no discurso do mundo invisível que vai se tornar visível quando eu permitir, que insiste em negar os relógios. Que as assombrações tragam aos meus olhos a poesia e a sabedoria de escolha.