quarta-feira, abril 15, 2009

Claustro


Percebo que quando entro no meu quarto de estudo, me torno atemporal.
Talvez eu esteja certíssima, conheço-me bem o suficiente para apreender a ciranda da minha introspecção.
Em meio aos livros, anotações e impressões pessoais, permito que os pensamentos transcendam sem limites cronológicos ou espaciais.
Dá-me uma sensação de um distanciamento dos fatos comuns pela “escória”, então, esqueço os ruídos do mundo exterior, encasulo-me, sou alguém em permanente solilóquio.
Quero atingir latitudes inesperadas, no ambiente côncavo, meu pequeno-grande claustro, um quadrilátero.
Há em mim, tendências conventuais. Gosto da solidão opcional, do silêncio que me convida ao mergulho vertical, capaz de juntar cacos e fotografar no caleidoscópio da vida.
Não me amedrontam os duendes que adejam sobre a cabeça de um ato de soberania. Tudo que invento é real. E bem sei da capacidade de imaginar. A melhor forma de saber-me parte da humanidade. Não quero amarras nem grilhões que venham a sufocar os gritos de alerta. As pulsações dizem da vontade de ser livre. A cada instante, sinto o balando do ir e vir, as circularidades acontecem, os pontos de interrogação se agigantam, as exclamações, as vírgulas, e, sobretudo o parágrafo inacabado inserem-se na minha biografia.
Não quero pensamentos finalizados; que a linguagem receba sempre a renovação dos momentos: do ontem, da forma que fui; agora, a receber os eflúvios do passado; amanhã, a recriar-me sob a influência de dias atemporais.
Há uma quietude que me agrada na gruta do “oráculo”. Na poltrona, leio Freud.
Suas palavras me confortam porque nelas existe o afago das memórias. Memórias involuntárias que visitam a alma sem pedir licença, chegando de repente, instalando-se, tornando-se companheiras inseparáveis.
Todos nós conservamos nossas metafóricas estradas, afuniladas, largas...
As circunstâncias elaboram o trajeto... Eu sou eu e minha circunstância e se não salvo à ela, não salvo à mim.
Alcançar metas do destino depende do ritmo e da perseverança. Há atalhos que apresenta o andar, outros atrasam a cadência dos passos. É uma questão de escolhas ou de impulsos individuais. Não basta querer ou lembrar. Urge a obstinação no reviver ou num viver diferente.
As bussolas orientam, jamais legitimam as decisões.
Não há fronteiras no meu claustro porque o pensamento atravessa qualquer demarcação. Leio, releio sonho; Situo-me em lugar algum. Nada de limitações.
Estou absolutamente desnuda de qualquer idéia preconcebida. Há uma fera indomada dentro de mim. E, no entanto, sou a mais pacifica das criaturas, aclamo os lençóis.
Qual o tamanho do meu universo? Que importa a materialidade do contorno se ele cabe dentro do meu imo e não há brechas indecisas na imaginação. As asas me servem para sobrevoar mares e territórios, continentes e oceanos, lugarejos ou aldeias. Sou universal e atemporal.
O relógio do corredor tilinta horas, minutos e segundos. E eu sequer o escuto na minha viagem existencial.

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