quarta-feira, maio 20, 2009

Há quanto tempo não sinto aquele cheiro? Aquele afago de mimos, com caprichos de sutileza, macio, doce, especial. Ah, que saudade do gesto branco e agradável! Uma pratica requintada que se traduzia num apelo de leveza. É, nada mais singelo que um cheiro. Pulam a toda hora. Sem que desse por isso, os meses foram passando, as relações se tornando mecanizadas, a humanidade acanhando-se do jeito de sentir, os meneios solidários desapareceram, mas a Terra continua girando em torno do Sol. E os sentimentos trocaram as expressões, embora na essência sejam os mesmos.
Onde anda o romantismo? Onde anda o cheiro colorido? O aprendizado existencial me chama a atenção para os artigos corriqueiros anacrônicos, escondidos em baús fechados a sete chaves. Não desisto de perguntar: O que fizeram com os encantos?
"Perdi o bonde e a esperança, volto pálida pra casa".
Em momentos assim, lembro de você... Quando amores 'não correspondidos', logo recorro à minha 'quadrilha'; enfrento um obstáculo mais clarividente, o que encontro é uma enorme pedra no meu caminho. Diante das vulnerabilidades, coração machucado...
"Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo."
Se existe descompasso entre os meus devaneios, apego-me à rima.
"Mundo vasto mundo se eu me chamasse Raimundo seria uma rima, não seria uma solução"
Como sobreviver sem versos que trazem à superfície os mistérios do âmago?
Trago na mais recôndita porção da alma e de novo apego-me às transfigurações: "E depois das memórias vem o tempo trazer novo sortimento de memórias, até que, fatigado, te recuses e não saibas se a vida é ou foi."
A memória persevera. Atiça a consciência. Reclama espaços num mundo cheio de renovações. A vida é o que foi... Sei lá!O presente se faz breve, enquanto o passado corresponde ao tempo consistente. Os dias atuais ofuscaram a dimensão lúdica da rotina. Não há tempo para belas tradições. Ecoam apenas ressonâncias de um pretérito não tão distante assim. Todos correm em direção ao nada, os carros buzinam, o frenesi, se instala ninguém conversa na esquina, as mãos se agitam em desordem, vou e volto, não faço coisa alguma, angustio-me para chegar pontualmente em compromissos marcados...
Não sei o que se passa em mim, os sonhos esmoreceram em certa encruzilhada, e então... Então! Estou cansada, o corpo pede um mínimo de sossego. Acordo, olho o relógio, atropelam-me os atrasos.
Desperdiço horas, meses, anos... Ando a patinar em gelo, escorrego na estrada da vida, levo um tropeço; Não importa, ninguém viu. Há tanta gente nas ruas, nos mercados, nas lojas!
E tudo isso pra quê? Mas né..que seja!
A verdade é que o cheiro sumiu, pelo menos perdeu a força majestática. Outro dia me surpreendi ofertando um cheiro. Foi quando me deparei com o espanto de um impulso inopinado. Serei alguma ré de gestos à antiga? Acho que sim. Confesso que não me preocupa essa indisposição com o mundo excessivamente ocupado.
Carrego uma saudade embutida no peito, um grito de pasmo, às vezes até mesmo uma frustração por não ter defendido com mais afinco os valores que me faziam feliz e que lamentavelmente feneceram. Porque não recuperar um dedo de prosa na hora crepuscular, um ingênuo momento, o cinema à tarde, as idas a casas de 'amigos', o açaí no fim da tarde...tudo pode demorar para voltar , ou talvez ter ido embora realmente, mas não a essência tão delicada, inocente, bucólica.
O cheiro, por favor!

Um comentário:

  1. Cheiro...
    O mais mnêmonico dos sentidos.
    Seus textos são perfeitos e admiráveis.

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