terça-feira, maio 12, 2009


Nem a metafísica, nem a teologia teriam dado a devida ênfase ao medo que habita as mentes por aí.
Medo de fraquezas, pecados, medo da morte, do sofrimento, da solidão...
Toda aventura humana sobre a terra não é senão uma permanente e não resolvida tensão entre o medo e a esperança.
Há, antes de mais nada, o medo existencial, medo fundamental, direta decorrência da radical contingência, a não necessidade de todos os seres visíveis, como Sartre percebeu melhor do que ninguém, a dramática evidência de que tudo que aí está, e, portanto nós mesmos poderíamos não estar. Nada exige a existência de coisa alguma que se encontra posta neste mundo. Estamos na existência, não somos a existência. E do mesmo modo como estou, poderia não estar. E se nada exige a nossa existência pessoal, se nada exige que eu haja começado, porque esse 'eu' não poderia também ter um fim absoluto, porque deveria continuar para sempre, indefinida eternamente?
Viemos literalmente do nada, frase que já é em si mesma, meio absurda, porque dá a entender que antes já seríamos alguma coisa, e, no entanto, rigorosamente não éramos coisa alguma. Fomos criados. Nada éramos antes. Porque então o nada absoluto não pode ser também nosso destino final?
Medo, portanto do retorno ao nada inicial. Medo da vida, da morte, do fim, do dia seguinte... Medo do que nos aguarda no próximo minuto. Medo do total aniquilamento. Medo da não existência, do 'não ser'. Somente as crianças que ainda não têm consciência da insegurança do dia de amanhã, podem viver felizes. O que não será o homem capaz de fazer por conta desse medo ontológico? Quem sabe não estará aí, como por um processo de compensação, a raiz daquela pretensão de ser. A auto valorização exacerbada, dar ênfase à si mesmo, o orgulho, a soberba... Talvez a origem de todos os pecados.
Depois de tantos outros medos específicos, pontuais; medo das privações, enfim...
Medo das canseiras, do esforço incessante, do suor inerente ao dia de amanhã... Origem da tentação da preguiça.
Medo da dor, do sofrimento, do choro, e a compensação será a atração pelo prazer desvairado que de nada vale.
Medo dos outros, da força, da simples presença...
Em meio ao acaso, muitos medos. Por mais graves que sejam, e são, podem de algum modo resultar de nossas debilidades essenciais. Serão muito mais pecados na linha da fraqueza do que na linha da maldade. No fundo, aqueles que clamam aos céus e pedem a vingança, segundo a antiqüíssima tradição jurídica: o homicídio voluntário, o pecado contra a natureza em matéria sexual, a opressão aos pequeninos, a retenção ou privação do salário devido ao trabalhador, pecados em geral praticados pelo poder e pela prepotência.
O que há no fundo das nossas quedas que bem podem ser manifestações de angustias, medos fundamentais... Há quem conheça o meu coração e saiba dos medos existentes. A consciência, 'a' pessoa.

2 comentários:

  1. Ouvi falar de você, e achei seu blog muito interessante :]

    ótimos textos, e fotografias maravilhosas.

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  2. vc é minha professora de filosofia!

    te adoro, pirralha!

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