terça-feira, setembro 28, 2010


Quando você ama -realmente- alguém, essa pessoa se torna parte de você, ela se torna sua vida, seu tudo. Muda e inspira de tantas maneiras diferentes que são indescritíveis.

 


 



...porque quando você ama alguém de todo o coração, você vai deixar de amar a si mesmo.

terça-feira, julho 27, 2010

A evocação só começa quando os ponteiros anunciam o próximo instante. É preciso estancar o tempo para que o pensamento flua em liberdade. Por isso deixo de dar corda no relógio de carrilhão, não escuto badaladas dos quartos de hora; então me esqueço das prisões cronológicas e atenho-me ao sentimento crescente, independente do tempo que levou para crescer, intensidade gritante num ritmo frenético e abrupto. À sombra dessa abstração, consigo rabiscar nuances no imaginário. Escrevo palavras soltas, crio frases, tenho prazer em escandir sílabas, uma a uma; os lábios murmuram, mas você não me ouve. Não, não me ouça agora...só me abrace e entenda o quanto ta sendo importante pra mim, o quão especial e assustador têm sido e crescido. Conheço os meus refúgios, aprendi a fisgar o inatingível, toco de longe, cuido de longe, mesmo quando vejo de perto. Sinta, apenas sinta.
Em meio a desavenças, tristezas, alegrias... Tornei-me mulher. Entretanto não vou deixar de falar da menina que não cala em mim. Não é exagero dizer que o epicentro de todas as minhas recordações encontra-se na infância, lá mesmo , na ampla casa que me acolhia nos medos e nas alegrias.
Hoje, cada dia me desaponta com virgens surpresas, as interrogações enchem o meu céu azul que um dia foi turvo. Entreguei tão rápido o que guardei por anos, o céu turvo abriu-se. Será que eu mereço, será que o querer propriamente dito e desejado está próximo? No silêncio de um instante que presumo estancar, deduzo que olhei o mundo por trás de um vidro e você acrescentou às cores e nenhuma dessas expressões morrerá em mim a menos que cultive, cuide e permita-se ser retribuída. Quero sentimentos lindos e infindáveis, quero abraços ternos e eternos... Quero querer sem medo, sem medo de amar, sem medo do amor. Um dia vai entender o som mudo das minhas palavras, o meu abraço que confessa, o olhar de quem sente e não nega.

domingo, junho 27, 2010

A estética dos sentimentos




O mundo é feito de emoções: surpresa, medo, riso, choro... Há dias tranqüilos; outros, tumultuados. As previsões são tão fugidias, que escapam do osso controle. Dependem das circunstâncias. E não somos capazes de traçar com segurança metas antecipadas. No redemoinho das sensações, trago a idéia de um cromatismo interior, sentimento que aflora em tom e semitom difuso ou clarividente. Procuro, talvez, em vão, imaginar cores para as vivências. Atribuo uma estética ao subjetivo. Pois é, o sentir se alia à arte e todos os atos humanos dependem da maneira como cada um se depara com os acontecimentos. Carrego uma sensibilidade à flor da pele, vejo-me um acúmulo de intuições, perguntas sem respostas, devaneios, alheamento. Repito Fernando Pessoa 'Quando olho pra mim, não me percebo. Tenho tanto a mania de sentir que me extravio às vezes ao sair das próprias sensações que recebo'.
Os versos são belos e confirmam o exercício da estética. Têm sido assim os grandes poetas, aqueles que dão à escrita a força das imagens: palavras que embalam fonemas num ritmo melodioso, a transcender a materialidade para atingir a abstração na sua mais fina agudeza. Às vezes entendo que a vida reclama a arte em todos os momentos. Cada minuto deve ser vivido como se fosse uma obra de arte. Tempo igual à arte, eis a síntese da existência. Arte na palavra, arte na pintura, na cultura ou na menor expressão humana.
A criação simboliza o ponto de partida. Afinal, 'viver não é necessário, o que é necessário é criar.
Tudo isso vem à tona porque ando atordoada com o ritmo do cotidiano. As pessoas transitam apressadamente e eu não sei pra onde vão. Caminham céleres na direção do quê? Outro dia, mais especificamente horas antes do jogo entre Brasil e Coréia do norte, percebi o trânsito agitado, a calçada se tornara num atalho de fuga, os motoristas buzinavam impacientemente, os desaforos eram disparados às cegas.
Os tempos contemporâneos se revelam ruidosos, violentos, pragmáticos. Compreendi que o bosquejo dos sentimentos reivindica um mínimo de meditação. A ascese não pode acontecer dissociada de constantes imersões. Invejei a rotina dos mosteiros, as clausuras isoladas, o passeio no átrio. Circulo de um lado para o outro, do frenesi à calmaria; então me deparo com a lhaneza do dizer: amar é a eterna inocência, e a única inocência não pensar..'
Os sentimentos se completam na estética, na forma, na cor, na gradação dos contrastes. De Michelangelo a Picasso, os propósitos são semelhantes, cruzam-se e se tocam em linhas convergentes: a busca do belo. Os descompassos dos dias atuais se distanciam do culto à virtuose e proclamam tecnologia como o cimo de todas as coisas. A humanidade mudou e eu me tornei uma estranha observadora, alguém à deriva, escolhendo cores para tratar afetos e desafetos. Uma abstração que me agrada.
Como definir a cor do silêncio, da alegria, da lágrima? O silêncio será branco, límpido, cheio de pureza? A alegria, amarela, expressiva? A lágrima, indefinida, quase oculta, turva, a evocar o cinzento? Ou as tonalidades são ilusões de um coração nostálgico?
"A minha alma partiu-se como um vaso vazio, caiu pela escada excessivamente abaixo, caiu das mãos da criada descuidada, caiu, fez-se em mais pedaços do que havia no vaso."
Preciso de ânimo para continuar a pintar a aquarela que nunca comecei.
Ainda to tentando ritmar o silêncio, tentando compreender a sua conduta nesses domingos frios e de autoconhecimento imprescindível.

domingo, maio 09, 2010

O carro buzina, o alarme do outro dispara, a televisão brada em altos decibéis, o garoto dá corda num brinquedo estridente, o microondas indica que o tempo calculado esgotou-se, o cozinheiro grita o prato da vez, o censor de estacionamento alerta para um obstáculo, o restaurante aumenta o volume da música, celulares tocam, muitos, vários, inúmeros, vozes dizem ‘alô!’, um carro de propaganda anuncia promoção da loja de presentes, a sirena da policia persegue algum fora da lei, o guarda de transito apita desesperadamente, a campainha do apartamento toca com insistência, a maquina de lavar acelera na rotatividade, o limpador de pó cadencia uma vibrante zoada...o mundo se exaspera em brados insuportáveis. Tenho a sensação de que as pessoas não conseguem mais conviver com o silêncio. Há um burburinho no ar que atordoa como se, embriagadas por timbres externos, enfrentassem melhor a realidade. Estou cansada de tanto barulho, careço de um mínimo de quietude, ainda que a contemporaneidade já não suporte os ecos interiores. Os medos se misturam a ruídos, que funcionam como amortecedores das insatisfações. Assim, a vida passa na superficialidade, sem que a essência venha à tona, camadas de papel celofane envolvem o núcleo da reflexão. E, pronto. A anestesia provocada pelos mais estranhos estampidos, resolve os problemas cotidianos.
Sair de casa hoje PE ato de heroicidade, transito engarrafado, barulhos assimétricos, uma gama, repleta de dificuldades, que convida a um retorno imediato. A cidade perdeu o planejamento, ninguém respeita ninguém, por todos os cantos observa-se intranqüilidade estampada nos rostos, sem aludir à violência crônica. E não importa a idade, a hora do dia, o nome da rua... Em todos os lugares, os barulhos espocam e os nervos se descontrolam, expostos, à flor da pele.
Confesso o amor pelo silêncio. Não sou diferente de ninguém, igual aos iguais. Conheço, todavia, meus limites, os estampidos me incomodam sobremaneira. Por mais que eu tente suportá-los, acabo rejeitando-os com veemência. Cenas histriônicas me arrepiam, e, no entanto, a todo instante, eu me deparo com uma avalanche de ruídos, vindos de todos os lados, como se me perseguissem assustadoramente. Que hei de fazer?
Sou tão pequena pra lutar por um mundo mais calmo e sensato. Um mundo silente, mera utopia! Resta-me, entretanto, um aceno de alerta nessa multidão ruidosa. Um rogo de desespero: Silêncio, por favor!

sábado, março 06, 2010

Que idade tem os meus desejos? Sei que percebo adolescentes, plenos de energia no fundo, quase infantis, mais jovens que o corpo. Há uma miríade de vontades que não corresponde à versão cronológica. O hiato cresce à medida que os dias fluem. E entre conflitos, a alma se expande, transbordando-me. A vida linear seria insípida sem altos e os baixos das emoções.
A rotina, ela por s, já garante o movimento interno de cada um. O que vale é esse balanço de uma intinerância que oscila do sim para o não. Do não para o sim em compasso pendular. O equilíbrio dos contrários traz a harmonia da vida: ora de um lado; ora de outro. E a caminhada persegue linhas centrais do pensamento.
O paradoxo sustenta a unidade. Somos feitos de partes desiguais, fragmentos que se espalham por aí, pequenos estilhaços e grandes pedras rochosas, ainda virgens de lapidação. Trago a sensação de que preservo gavetas no consciente, todas interconectadas. Por uma medida pragmática, procuro fechar uma e abrir outra, como se fossem independentes, com identidade própria e domínio igualmente próprio. Ainda que o exercício das gavetas favoreça atos de objetividade e subjetividade, os elos não são atingidos. A cadeia permanece.Sou um todo constituído de somas, dividendos, multiplicações e subtrações. Busco adição como o elemento mais favorável á construção do meu ser, e a passagem dos dias, meses e anos impele-me o esbanjamento da constelação de mim.
Quero as veias a latejar pulsantemente, a sentir os fluxos e refluxos nos seus ápices, sem restrições, numa doação completa e prazerosa. Viver é experenciar intensos sentimentos. Do zero ao infinito, as sensações variam dentro de uma cadência cotidiana. Os meus êxtases se desdobram nas fantasias do possível..
Pode parecer estranho, mas faço do pensamento, um ato de lazer. Nele me descubro, me invento, me reinvento, me isolo ou interajo com vividez . E não importa o tempo de duração: no pensamento, tudo é eterno. Vou longe, atravesso os oceanos que me habitam, desembarco em portos distantes, sigo em direção incerta e acabo me confundindo numa geografia que não tem lugar.
Do que se conclui que pensar é um ato solitário tanto quanto pleno de multidões.
Multidões silenciosas que ajudam a fortalecer o eu pessoal.
Será possível deixar de pensar?

No paradoxo que sou eu, o pensamento consigna o meu ponto de fuga e de realidade. Brinco com as palavras mudas, e também com as palavras escritas, na tentativa de torná-las partitura de mim. Assim, deambulo entre sendas as mais diversas e me apreendo cúmplice das palavras, palavras que formam pensamento ou apenas revelam o âmago da existência.
Palavras e pensamentos, caleidoscópio perfeito.

sexta-feira, dezembro 04, 2009

Sei que sou feita de recordações. Absorvo o instante de agora para amanhã desfiá-lo num novelo de ilusões. Não sou diferente de ninguém. Uns ousam falar dos sentimentos; outros omitem as emoções por rigor de discrição, ou pelo receio da excessiva exposição. São jeitos diferentes de sentir, mas sentidos sempre. Pois é, o mundo é feio de memórias, das lembranças que nos acodem com a força das reminiscências. Há uma nível evocativa que se instala dentro de cada um, a esboçar o rosto que é meu e que é de todos. Se preservo a memória, preservo a vida. A correlação é absoluta, íntima.
E o tempo se instala naquilo que fui. Conheço cada pedaço do caminho que atravessei, transito entre fantasmas, existo porque eles me fazem latejar o sangue que corre nas veias. Gostaria de escrever sem palavras, mas o pensamento surge mediante a linguagem. Não posso dissociar a letra das formulações da mente E escrevo por necessidade visceral. Narrar é a única maneira de (às vezes) sobreviver. Entre fases e parágrafos, sinto-me viva; a mexer em intrincadas teias formadas no meu íntimo. Algumas emaranhadas em bolor, algumas tecidas sob os subterfúgios das linhas da Esfinge, linhas enigmáticas, de tradução quase impossível.
Urge desvendar enredos misteriosos, o que não posso é deixar-me engolir por mim mesma. E os volteios são nacos de uma história que ainda não contei (quiçá, não vivi.): Vagueiam lá atrás na estrada da infância, quando o tempo não se fazia tempo, corria entre os passos da menina, ingênua, pura, a selar compromissos com uma cronologia eternizante. Quem disse que contabilizava os dias? Cada minuto que passava, representava um minuto de alegria...
Os Natais me diziam épocas de encontros com os parentes que não freqüentavam a minha casa. Tudo palpitava na esperança do advir. Ser criança é ter a capacidade de visualizar o infinito, o infinito...
Depois crescemos e as idealizações modificam, mas a memória serve de alicerce à construção das utopias. Devanear corresponde a ativação da memória, a presentifica-la sob a escolta do passado. E o passado se congela numa memória seletiva, capaz de transfigurar os fatos e as lembranças. Pensar, no ofício maior da existência. Penso e medito. Introspecção me habita. Gosto de escandir essa memória, assim desfruto com maior parcimônia e, com a calma dos mansos, procuro tratar a lembrança com o máximo respeito, afagá-la com mãos abstratas, compondo a unidade de fragmentos. Conheço alguns estilhaços, de outros, nem desconfio. Ainda bem! Necessito de reservas de mim. Há dias em que o mundo me espanta; há dias que convivo com a exterioridade em harmonia; há dias em que o desgaste do corpo se dá em intensidade. O círculo da vida é assim: um rodeio permanente com altos e baixos; Mas tudo muda em movimento espiralado. A soma dos dias resulta no calendário do tempo, e como indaga “quem sou eu para saber p que é o tempo?”
Que pretensão tentar escondê-lo!
O que me cabe é a memória. Sou inquieta e ansiosa. Talvez aparente o contrário; puro engano. Trago os nervos expostos e o mundo que me cerca, se configura a partir do que eu percebo. Neste solilóquio vou edificando pedra sobre pedra, uma engenharia lenta e vagarosa. Prefiro assim...a memória reclama um trato especial, vagaroso e paciente, dotado de perenidade e delicadeza.

quarta-feira, outubro 28, 2009

Ando cansada de assistir ao que não quero, de saber-me uma ilha deserta em meio à vasta multidão. De perceber que o mundo avança sem bússola, alheio aos sentimentos de cada um. Vejo demais e ouço o que dói. O burburinho cresce em insuportáveis decibéis. Fujo pela primeira porta: vou para um lado, para o ouro, estonteio-me, o corredor acaba desaguando no mesmo destino: a banalidade das emoções. Ninguém detém o ritmo avançado do fracasso ético, os fatos bailam à nossa frente, retratando mensagens artificiais e postiças. O sentido crítico vem desaparecendo ao longo dos anos, os recuos diante dos padrões vigentes esmorecem. O medo atravessa a garganta dos homens. O que não falta, entretanto, são os fantoches por toda a parte, prontos para atacar a solidificação de um modelo vulgar, sem menor requinte de elegância. Cenas mambembes, inexpressivas, pobre de grandeza se repetem: mediocridade impera. A análise criteriosa da vida desapareceu. Esqueceram a honradez e a nobreza de atitudes. O que fazer?
Respiro fundo. Sinto coração partido, fragmentado. Guardo as lágrimas nos olhos, mas recolho-as; afinal, a festa não pode ser interrompida e o concerto de uma orquestra toca ruídos assimétricos. Pois é, a rotina perdeu a magnitude do afeto e os dias se sucedem desordenados. O importante é galgar o pódio da vitória, nada mais. Sentimentos? Que bobagem! Romantismo?Palavra em desuso. Apenas o reflexo de um sucesso arrogante. Aí sim, a glória se confunde com meras ilusões momentâneas. Trago um enorme cansaço que se mistura à sensação de impotência. As frases voam na dispersão de rostos desatentos. O fôlego do meu sopro é brando para acompanhar a velocidade dos acontecimentos; E...”tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo”, como diria Drummond, para enfrentar a avalanche de insignificâncias. Quão pouco para reverter um tempo de homens amputados. O vidro quebrou, há cacos espalhados pelo chão, com jeito a trilha se refaz... mas é preciso pisar em ovos. Ao compasso de inesperados volteios, intensa circularidade assegura minha errância.Não posso nem desejo mudar. Jamais aplaudirei atitudes histriônicas, nem excesso de exibicionismos, nem palcos soberbamente iluminados. Opto pela penumbra dos gestos conscientes, verticais, abissais.Que o pensamento me traga a lucidez da discrição, a prudência das cores leves, a virtuose do silêncio. Não aprecio riscos fáceis, tampouco a versatilidade dos áulicos. Entrego-me à introspecção do humilde. Os jorros de vulgaridade mortificam-me, apunhalam-me a alma, anulando-me por inteira.Busco a simplicidade do autêntico, a pureza dos sentimentos, o cálido aperto de mãos entre amigos que se querem bem. E brado: chega de falsos protocolos, de fingidas etiquetas, de intervalos no mundo. A vida não permite ensaios, apenas pensamentos pro ativos; existe em tempo real, aquele que se vive. Não adianta adiar o “espetáculo”. Ou nasce, cresce e fenece. Abandonar a essência das coisas em nome das banalidades correntes equivale a macular a própria historia essa biografia individual ou coletiva, comprova a nossa existência. Os ponteiros dos relógios ontológicos jamais se atrasam. Urge, portanto, que a dignidade represente o único e poderoso valor da imanente aos espíritos superiores.
Estou cansada de ruínas morais de fragmentos de afeto. É hora de reconstruir o mundo, com pressa e sem tergiversações, pois não há o que esperar. Coloco o primeiro tijolo...

sexta-feira, outubro 23, 2009



Os ponteiros se movem no bojo circular do relógio antigo. Há um ritmo lento, gradual, persistente. Tento apreender os átimos de segundo; Enrosco-me em agudas subjetivações. Fecho as pálpebras. Ouço o imponderável. Faz de conta que o "tiquetaque" é um brinquedo de infância, uma melodia adicional que se junta às artes da criança em épocas de assombração. Invento uma nova cena. De olhos vedados, recrio espaços e tempos em pura simultaneidade, Nunca me arrependo das faxinas interiores. Os ponteiros, plenos de adereços barrocos, avançam. O instante se esvai alheio à minha determinação, quero tocá-lo, sou impotente diante da tua feroz indiferença. Por enquanto, o tempo equivale ao menor intervalo do pensamento. Estou a meio de uma circularidade irrefutável. A terra parece com o relógio, ambos detêm o poder de orbitar em si mesmos. Passageiros invisíveis que me amedontram (soberanos, autônomos, déspotas). Há um movimento a extrapolar os sentidos, e não adianta perseguir um mandala que não é abstração, embora os meus pobres recursos sejam tão frágeis que não o identifiquem. As semelhanças se irmanam; os pirilampos acendem e apagam; a mariposa é atraída pela luz, seu pó é atraído pelas minhas mãos e a as minhas mãos levadas aos olhos. Será? Whatever!
O que me serve de bussola. O instante me devora, sequer confirma o lacre da existência. Estou certa de que o relógio representa a ancestralidade que me deu origem. Quantos já o vigiaram?Ele vem de longe, muito longe, com o peso da herança consangüínea e a carga de um legado que desemboca na regularidade do pêndulo. Oscilo. Nunca sei em que fio de aço hei de andar no circo onde sou a trapezista dos nobres espetáculos. Equiblibro-me com dificuldade. O perigo me atrai, por isso recuso a rede de proteção. Deslizo sob olhos, apresentações suicidas.
O raciocínio escapa aos meandros da lucidez. Melhor não aderir à efemeridade do instante, deixar que a vida seja longe das recorrentes indagações. De que me servirão respostas vazias? Há muitas vozes clamando por amor, ainda que os abraços nao acompanhem a força do afeto. Estou cansada de repreender os meus sentimentos. Jamais perderei a esperança de ver o mundo se renovando através dos olhares em troca. Sou intensa. Não me agradam fragmentos de ternura, aspiro às totalidades. Procuro a completude dos que têm sede de vida. Quero a fonte jorrando águas de purificação, o céu transbordando azuis iria dos, o horizonte se fazendo cada vez mais longínquo. Alguma coisa há de ser inatingível para assegurar a pujança do mistério. A saudade invoca os sentimentos mais profundos. Amo os pequenos nadas, acato-me às vontades pequenas. Estou me entregando de uma forma voraz, mas às vezes não faz mal. Quantas vezes me sinto em carne viva? O relógio me cala. Sou a contingência de uma humanidade anônima. Como decifrar o enigma da esfinge? Mas o mundo se fez sozinho, independente da angústia temporal. Eu gasto os meus olhos acompanhando o balando do pêndulo....
Que horas são?
É, me perdi.

segunda-feira, outubro 05, 2009

Chuva, você, solidão. Sair à rua embaixo do temporal exige coragem, necessidade, vontade de cumprir a missão. O corpo está protegido, os pensamentos, talvez.
Como as pessoas são paupérrimas espiritualmente quando estão tentando parecer normais.
O medo da rejeição, que já começa naquela bênção chamada família, é fortalecido nas escolas, nas religiões, etc.
Com isso, você se afasta do seu "EU" e sofre de solidão.
E quando bater aquela puta tristeza, nenhum puto poderá tirá-la de dentro de você.
É tão gratificante perceber que há pessoas que fazem que sejamos nós mesmos sem medo, sem máscaras, sem rótulos... E que se fodam os que acham que estamos errados.
Eles não têm é a ousadia, a coragem de ser eles mesmos.Um bando de infelizes querendo nos passar a receita da dor, da desgraça, de todo o lixo que eles chamam de normalidade.

"Não existe vento favorável para o marinheiro que não sabe aonde ir"

http://www.youtube.com/watch?v=sP4mhUZoPyk

quarta-feira, setembro 30, 2009

Lembro de tudo. Minha alma tem espaços infinitos, reserva lugar para os pequenos detalhes e para os grandes acontecimentos. Não importa a magnitude da recordação. O que vale é a marca cravada nos recônditos mais íntimos. As imagens difusas ou clarividentes estão contidas nos minúsculos feixes da memória. Apego-me a apetência das coisas findas, tanto quanto a volúpia de alcançar, lá longe, as linhas do horizonte. As forças não esmorecem diante da garimpagem das emoções. Não tenho o dom do esquecimento; ás vezes, esquecer corresponde a um recuso de sobrevivência. Não me favoreço, todavia, de tal desprendimento. Como gostaria de anular alguns fantasmas e deixá-los na coxia do abandono! No fundo, conheço-me bem: Sou uma incondicional devota de recordações. Não repudio os apelos do ego. Ando de mãos dadas com certas assombrações. E minuto a minuto, assusto-me!
Acatar deslembrança, mero esforço de uma razão intocada. A memória abriga todos os nacos, guarda-os com desvelo e, foi não foi, a lembrança involuntária vem à tona, me pega desprevenida, me invade, quase sempre, me entristece.
O ciclo se renova indo e vindo, presentificando-se a qualquer hora, como se em mim habitasse um albergue sem limites. Carrego a leveza dos sonhos ainda não granjeados e a melancolia dos devaneios porventura frustrados. Mas o tempo da recordação se estende para o passado; afasta-se do agora, e por isso, alia-se ao ato das revivências. De novo e de novo, até chegar ao desenho idealizado. E hoje é dia de reacender as possibilidades. Todas.
Estou disposta a vasculhar nos vestígios adormecidos. Amanheço com uma enorme vontade de mexer em abismos inatingíveis. São tantos os motivos para enfrentá-los que não ouso trancafiá-los em zonas de interdito.
Volverei as lembranças recapitularei o que não aconteceu, pois é no território da infância que tudo parece começar.Não importa a idade, importa o estado de espírito, sensível à mutação.
De quantos sonhos sou feita? Não quero saber! Os multiplicarei.
Acreditar que a vida só tem sentido na medida em que desdobro a potencialidade do querer, do querer mais, sempre mais, de modo a fortalecer a ambição dos desejos. Afinal tenho plena consciência do poder da minha vontade. Percorro o périplo cotidiano, ainda que as curvas sinuosas venham a retardar as pisadas no chão frio. Vou e venho, a dialética serve para auxiliar a caminhada. Nem sempre as estradas planas levam ao porto de chegada. Quem já não sentiu o seu navio à deriva?
E, no entanto, em algum momento inesperado, as águas amansam, o corpo singra o oceano calmo, o silêncio se espalha dando passagem às ondas em cadência. A alma relaxa, pronta para exalar lembranças de ontem. Piso a terra firme e construo o mapa das inspirações. De posse de uma história que é minha, escrevo a biografia romanceada porque não tenho aptidão para a racionalidade pura. Misturo sonho com realidade e me sinto relativamente feliz. Quanta coisa aconteceu apenas na minha imaginação. Será que isso é diferente? Nada, somos todos iguais. Se o real me escapa, apego-me as invenções de mim mesma. Numa mistura caleidoscópica, observo por vários ângulos. Vejo pacíficas paisagens, cruentas batalhas, vejo amor, vejo ódio, vejo-me adulta, vejo-me criança. Entre opostos, sedimento os fragmentos; sou inteira, soberbamente inteira no retrato das reminiscências. Há em mim uma gruta antiga e bolorenta, grávida de lembranças e evocações, mas firme... Construída em pedra virgem.

quarta-feira, setembro 23, 2009

O sol clareia lá fora. Ninguém me vê. Os olhos piscam insistentemente à procura de uma meia-luz, que seja.
Vou e volto na lentidão da busca. Não me satisfaz acelerar o advir. Há tanta miragem a ser recriada neste despretensioso espaço que tudo parece começar agora.
Começo. Isolada ao canto esquerdo, tateio os extremos de ausência. Espio a nudez do chão na certeza de que os tempos fervilham no ar, fortalecendo a ancestralidade. Estou só. Não quero companhia. Qualquer diálogo quebraria a lucidez do gesto. Fui até onde não devia, cabe-me agora, arcar com as possíveis conseqüências. Trago no peito a droga da emoção. Faço uso, quando perco a cabeça, nem sempre se resume a portentosos renascimentos. Desprezo o que antes se fez ali. Meu ofício não é inventar, é remoer memórias. Brinco com o espaço que se alarga pouco a pouco no infinito do que me apraz. As horas tentam me sugar, mas escapo, driblo minutos e segundos, vigio o relógio inexistente. Diante da imagem, recuo. Não posso duvidar da minha parábola. A antiguidade representa o único recurso que me valho para vigorar a seiva das coisas findas.
...o quarto cresce pra dentro. Tenho medo das distâncias interiores. Penetro nos recôncavos de um corpo frágil e débil. Encolho. Abstraio o visível. Toco no imponderável e eis-me no absurdo de um espaço sem princípio nem fim. Estou a meio, a gravitar sobre o pequeno universo que me hospeda. Que "albergue" será esse? De repente, retorno à incurável timidez. Quantos amores deixei perecer à revelia? Que faço agora? Reabro a porta do túnel de um calendário vencido? Acode-me o frenesi de aproveitar a vida. Com a firme consciência dos que abandonaram desejos ao longo da estrada. Desde que comecei a escrever, passaram cinco minutos. Aproveitei? Se me escaparam, o que direi dos outros minutos? Idealizo a imagem do que nunca quis em verdade. Traços incertos e irregulares perfilam uma figura um tanto indecifrável. Há tantos intervalos entre mim e "eu" mesma. Não importa o pontilhado de um desenho em tela assimétrica. Reduzirei a lupa invasora para evitar inelutáveis enganos. Desde muito, já nem me recordo quando, talvez em um inverno enlameado de outrora, cobicei a discrição dos anacoretas. Não obstante da inclinação aos esconderijos, represo muralhas de vontades que se vão interpondo em uma cadência voluptuosa. Não consigo deter as pulsões que me instigam. Ainda bem que assim vivo, ao modo de um turbilhão inconformado, prestes a rebentar os sentimentos que se levantam à minha frente. Ah, quem me dera a liberdade das venturas inconscientes! Se desabarem as barreiras que me sufocam, irei me refugiar nas prateleiras desérticas do meu eu. Há recantos não preenchidos, sei que há. Resta-me o garimpo do querer, torná-lo possível também. Não receio os descompassos que regulam a bússola hesitante. Peço por pontos de fuga, passagens secretas para os casulos da alma. Ando escondida do mundo. Essa é a verdadeira história de quem não tem o que narrar rs.
Encho linhas vazias, eu, a própria imensidão do vazio no quarto desabitado. Longe de qualquer apreensão da realidade, assumo a intrepidez de dizer: existo
Embora haja "apesar de".

quinta-feira, setembro 17, 2009


A esperança é apenas adiamento. Aguardar significa protelar o não feito. O que venho postergando ao longo dos tempos?
Talvez não me lembre porque a lembrança dói, ou me lembre demais e , por isso mesmo, procuro anular as reminiscências à flor da pele. A realidade mostra-se delicada; merece, pois, tratamento especial. Tudo o que me acontece é pleno de significação, não sou capaz de fugir das ebulições interiores. Machuco-me à toa. Entre o sim e o não, perseveram inúmeras ondulações que me ferem ou me alegram. A palavra atenua os conflitos. O silêncio eleva à reflexão. O meio termo é a catarse.
Vejo-me um retrato em negativo, sem foco preciso, sem linhas de contorno. Qual o reverso de mim? Os ângulos do meu eu se contrapõem ou se complementam? O inverso parece lacrar o transverso em uma equivalência quase fidedigna. Tenho medo de escandalizar os sentimentos. O fio do novelo, cuja a ponta já não enxergo mais, desemaranha, a expectativa cresce em torno das emoções intermitentes. Espreito o momento oportuno para desabafar. Recolho as dobras do passado no sótão e confio no que guardo ali. A tralha amontoada faz de conta que mimetiza ao elenco das coisas “inúteis”. E vou...
Como se os meus opostos não fizessem parte de mim. E avanço. Não tenho alternativa. A oportunidade perdida mortifica-me. Seu que os ensejos passaram, agora só debruço-me sobre a insipidez do abismo. Não me arvoro a reanimar sensações antigas. Deixo de dizer na hora certa e as delongas simbolizam batalhas perdidas. Mudaram as cenas e eu não mudei.
A quem devo ofertar-me? Qual o endereço da minha vida? Solta no espaço, imagem etérea de mulher sem nome. Na pia batismal, criaram a ficção do meu eu. A água fria, a derramar-se sobre a cabeça, dissolveu por entre as dunas do sal da terr. Chorei diante dos impactos iniciais. Hoje me ensinaram a ter lágrimas. Peregrino desde então...
E guardo o retrato em negativo. E eu, solerte nessa miragem difusa. É dela que brota a inventividade de mim. Os ícones apagados me favorecem porque me recriam na suposta ilusão do rosto fosco. Engano-me?
Claro que sim. O desenho irregular serve para aclarar os desejos em crise. Se não existo no perfil concreto, melhor assim. Que bom saber-me apenas uma aquarela esmaecida! Quero-me afogada em incertezas. Sufocar-me-iam “Ah, mesóclise! rs” as verdades de uma oca oratória. O que faria com o caldo de palavras insossas?Abate-me a enormidade de um cansaço de coisas superficiais. Cumulo-me de essências. Dois retratos se harmonizam: O que acompanha as linhas do tempo, outro que me preserva em opacidade. As escolhas recaem nas definições, incrível.
Apesar dos paradoxos, fortifico-me em pilastras de unidades. Não amo, amei, nem amarei o explícito. Sou adepta visceral das pinturas em brumas. As curvas entre sinuosas me atraem, as vivências à beira do perigo me fascinam, os fios de aço de um trapézio quase celestial me perturbam. Qual a matéria prima da existência? Nem sei mesmo quem sou como saberei de que sou feita?
E não me apetece concluir. O pensamento flui desconexo, emerge de um apelo interior que se acelera à medida que transito no imponderável. Escrevo, escrevo, escrevo e não digo nada.
Prolixidade reinando. Whatever!
O retrato em negativo beneficia-me de vez em quando. O estado mágico da imprecisão. Talvez eu seja uma indefinida reprodução de mim mesma. Em preto e branco.

quinta-feira, setembro 10, 2009

Sinto frio e calor. Sinto fé e desesperança. Medo e alívio. Euforia e depressão. Sinto tudo calar e gritar de um modo assustador. Devastando tudo sem deixar dar vazão. Coisas mudando de uma forma tão voraz e eu aqui, ao lado do abismo, tentando cuidar de mim e do outro que entende ainda menos que eu. Eu ainda tenho pilulas de consciencia enterradas. Tenho uma biografia escrita pelas pontas das agulhas. É, desse jeito é impossível não sentir medo do escuro.
E para sair disso, eu não sei se poderei pagar o pedágio que irão cobrar.
Há um tempo definido nos calendários superpostos em mesas e paredes. Antes, denominavam-se cromos. Cuidadosamente elaborados, os cromos retinham o mesmo objetivo: mensurar o ano em vigência. E a ciranda reprisava em períodos contínuos e irreversíveis.
Os calendários diminuíram, ajustaram-se aos idos da modernidade. Não perderam, todavia, a função de contar a vida. Vivo assinalando, a priori, os acontecimentos futuros. E os espero com a ansiedade dos inocentes. O que mudou ou eu que mudei nesse ritual alheio à vontade?
Abro janelas, fecho portas. Olho o céu, amanheceres ensolarados, excesso de exuberância, aprecio a luminosidade dos astros, a ondulante cintilação, o brilho azul da abóbada estelar. Naufrago, volto a respirar. Afogo-me de novo, e assim vai. Não importa. Se não me esforço por praticar a agudeza da consciência, transformo-me num brinquedo de papel, a voar sem propósito algum.
O espírito de querer ir além do que vejo, me persegue.
E o que é tempo?
Um simples cromo na parede?Uma mudança numerologica? Ou uma liturgia de renovação?
:~~

Quem somos nós, de fato? Freud diria que somos ego, superego e id. Eu diria que somos isso tudo e mais uma mala de viagem perdida. Não há nada mais humilhante, porém revelador, do que se obrigada a desvendar o conteúdo da sua bagagem. Partindo do pressuposto que uma mala está no ápice do sentido metafórico. Parte do nosso cérebro que esconde todas as imperfeições, então mais que justificada a sentença: "mostra-me o que carregas na mala e eu te direi quem és".
Uma variação mais do que satisfatória daquela outra frase que diz ser possível saber quem nós somos pela companhia que escolhemos.
À medida que vamos tornando a nossa 'persona' pública mais complexa, menos queremos que os outros olhem dentro do que há de mais fidedigno em termos de representação pessoal: a nossa mala de viagem.
E toda aquela velha história, desde que o mundo é mundo.
Os ventos de agosto empurraram as nuvens, empurraram as chuvas e as águas, desapartando a briga do inverno com o verão, pare que este chegasse, pontualmente, no lugar da primavera. Em uma lua cheia, cheíssima, quase que um sol de sangue, apareceu setembro.
As velas voltaram ao mar, o povo correu às praias e o sol caiu de vez, despregado do alto, aceso como uma bola de fogo da aurora. A primavera está antecipada. Os animais, as arvores e até as pedras, muito mais que os homens, perceberam a mudança. Os pássaros começaram a cantar uma ninância à nova estação. As abelhas que esperavam flores, sonharam o mel.
O arco-íris pós-diluviano espedaçou as suas sete cores em asas de borboletas. Tudo voa. Tudo canta. Os peixes saíram das águas cegas e profundas. Tudo desliza. As nuvens ficaram mais brancas, as gaivotas mais alvas. As andorinhas saem negras do inverno e cada uma faz o seu verão. Os ares adquiriram uma transparência de vidro, uma visibilidade de cristal. Tudo brilha. Há um leite espargido sobre as coisas. O homem, se não consegue enxergar Deus, consegue vê-lo mais longe e, paradoxalmente, mais próximo dos seus olhos. A primavera puxada a saca-rolha, grassa pelo gargalho da garrafa. Tudo borbulha. Afinal, restando apenas empurram com um sopro de ingratidão, os ventos que trouxeram os sete dias de "7tembro" sopram uma frase de Sören Kierkegaard: "O gênio, como uma tempestade, vai contra o vento".
Eis setembro, o nono mês do ano civil, nos calendários, nos cromos, nas folhinhas, com seus trinta dias consagrados a Vulcano, o coxo deus que atiça as suas forjas. Os signos do mês (“virgem e libra”, parecem designar... se me permitem os astrólogos. A permanência da oscilação. No dia da mudança é o equinócio: a noite tem o dia por medida. Mais do que um mês, setembro é gestação, ele nos dá luz, nos dá à luz.
Despidos de casacos de julho e agosto, já ficamos vestidos de setembro.
O sol acende a sombra, os coqueiros estão tontos de imitar as ondas e as casuarinas roucas de imitar o silêncio. Do mar, a cor é um verde tão azul, que o espelho parece ser o céu. Se Narciso, um dingue vermelho de vela alvirrubra, vive inquieto para entrar na água, continuo achando o tempo bom para ver tudo e não fazer nada. Enfim, um dia de férias em vez de um mês. Ou melhor, um mês de férias em um dia.
Na rede tripla, não consigo dormir durante o dia, mal consigo dormir durante a noite, mas posso dividi-la em setembro.
Janeiro rima com fevereiro, assim como novembro com dezembro, mas setembro não tem rima, quero dizer, a sua rima está isolada por outubro. Setembro mão é só, setembro é sol. Setembro não é um, setembro é único.

sexta-feira, agosto 21, 2009

Costumo trancar afetos, cheiros, memórias. Se ainda fosse o caso de pedir silêncio, como seria fácil...eu me deitaria, fingindo de doente e teria paz, mas meu silêncio é a minha lâmina.

"Ainda tem o seu perfume pela casa, ainda tem você na sala.Porque meu coração dispara?
Quando tem o seu cheiro dentro de um livro, dentro da noite veloz..."

segunda-feira, agosto 10, 2009

Olho o relógio, mais uma vez me atraso. Os ponteiros indicam a cronologia perdida. As horas me devoram como um leão faminto à caça de uma boa presa. Vou para um lado, vou para outro, perco-me no emaranhado das linhas soltas. Nem sei por onde começar, o dia está cheio, a agenda repleta de compromissos, homens e mulheres transitam apressados, não há tempo para uma conversa descontraída, inquietações giram ao redor, cansaços aumentam, a fadiga se instala, absolutamente exaurida.
“Em vão tento me explicar, os muros são surdos”
Ligo, falo com um, com outro, aceno para desconhecidos, brota uma superficialidade que se traduz em atos mecânicos, os murmúrios nem sempre contradizem com o que almejo, a respiração ofega, o transito não avança, tenho hora marcada. Para onde vou realmente? ‘O que desatou num só momento, não cabe no infinito, e é fuga e vento’
O vazio me invade, carrego o peso inexorável das insignificâncias. Mas a jornada ainda exige esforço físico e mental. Enredo-me nos cruzamentos, já nem me reconheço. O anoitecer inicia, a nuvem pesada deságua, o corpo se molha, o velho hábito de não levar guarda chuva. Desisto do dia, volto. ‘“Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase”.
Entro em casa, jogo as roupas no chão do quarto e tomo uma ducha, entrego-me à beatificação da água, refestelo-me na cama, fecho os olhos...
Recapitulo a azafama dos momentos anteriores, a cabeça se atordoa o labirinto dos volteios me enlouquece. Não guardei o seu destino, então me perdi o caminho de volta.
“Porém meus olhos não perguntam nada”
O silêncio me acalma à semelhança de uma ducha de paz. Mas ainda escuto o burburinho da rua. E, sobretudo, assisto à desenfreada competição da humanidade.
Os valores inexistem, a corrida pelo pódio se acelera, todos aclamam os vencedores, só há lugar para troféus; aos perdedores, a melancolia da derrota. O corpo se retrai em repúdio ao desmantelo do cotidiano. A roda-viva fortalece o desgaste diário, a sensação é de tédio. O ambiente escuro me agrada e associa-se ao silêncio numa cumplicidade inatingível e, no entanto, absorvo a aliança bendita.
Clamo por afagos: quase pareceram no afã dos acontecimentos. Vulnerável, frágil, um vidro fino que se arranha à toa. E o palco da vida reclama personagens hercúleos, valentes, prontos para batalhas. “Tudo é possível, só eu impossível”
Acendo a luz num ato de bravura. Soergo-me do dia estafante. Passo uma esponja nos inevitáveis atropelos. Respiro fundo, sou outra mulher, amiga da noite e da serenidade. Entre luzes e sombras penso melhor. Reinvento as circunstâncias, descubro lembranças na mansidão da penumbra. “Estou escura, estou rigorosamente noturna, estou vazia”.
Trago, contudo, forças que me impelem a vigiar fotos. Aquela, é..me chama atenção. Olha-me com doçura, os lábios balbuciam. “Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão”.
E a noite me acalanta, trazendo-me o afeto. E mais uma vez eu deixo passear na superfície.

De vez em quando, nós!

.Ciclo vicioso doentio.

quarta-feira, julho 29, 2009

Dias avulsos

Um frio estranho espalhou-se pelo corpo, as mãos afagavam os labios silenciosos, alguma coisa precisava ser dita. O que falar? A cena voltava nos minimos detalhes, frases cortadas, desprezo, ódio, raiva. E agora o vazio invadia, tal qual um saco plastico cheio de ar que acabara de ser alfinetado. Havia apenas vulnerabilidades, nada mais. O medo embaçava as ideias, não queria voltar. Como enfrentar as ruinas de um sentimento tão vivo quanto o sangue que pulsa nas suas veias?
O amor pode unificar, o ódio mais ainda, todavia, ligaçoes de odio possuem mais intensidade, as de amor, talvez uma essência da eternidade. Talvez uma força motriz, fluindo como um todo em elos indestrutíveis, em ciclos intermináveis.Em alguns momentos, cheguei ao ápice do egoísmo, até que levei tudo para o abismo.A vida vai tecendo a teia, nos deixa proximos de alguns, afastando de outros. Pode nos levar a compreensão de algumas verdades não ditas.
Morri!
Dividi-me em duas partes, faço questão de habitar o inferno particular e sorrindo, posso esconder dos 'meus' demônios, as minhas verdades.
É, o dia nasceu melancólico, o céu meio turvo, mas não chovera.

Pior do que a tua voz que cala, é o meu silêncio que fala.

quarta-feira, julho 22, 2009

O virtuoso invade os sentidos, numa simbiose entre a arte e o jeito de amar a rotina. Jeito singular, um tanto nietzschiano: todos os momentos devem ser transformados em obra de arte.
A vida está aqui a palpitar, a latejar, a pulsar em veias inquietas, buliçosas.
Já carrego uma biografia longa.Páginas e páginas de um diário não escrito;calmamente me assegura a garantia do instante.
No recanto de paz, percebo os gestos sinceros, os laços visíveis, alguma amizade reforçada por uma cadeia ascendente.
Nada de novo nas narrativas. E, no entanto, o lacre das "antiguidades" confirmava pactos anteriores...
Minutos eternizantes e eternizados que nao se esvaem com a voragem do calendário.
A memória encarrega de armazenar o que de belo se conserva na trajetória existencial; As ternas sensações vão se superpondo nas gavetas perras do inconsciente.
Então, sinto-me mais rica de lembranças.